UM POETA REVOLUCIONÁRIO (MA NON TROPPO)

Sorcier, Le

Apareceu na universidade, um dia, certo poeta revolucionário para uma palestra revolucionária. O poeta nada tinha de marginal; não passava de um funcionário público, como nós (professor, se mal me lembro, de uma universidade federal em Minas Gerais). Enfim, um “coleguinha”, um ordeiro burocrata como nós, frequentador de incontáveis reuniões acadêmicas (a atual autogestão universitária implica uma infinidade de comissões e subcomissões para tocar o barco da instituição e dificultar o trabalho da inteligência).

A palestra foi no auditório da faculdade. O poeta falava tão alto, que quase não precisava de microfone; sua entusiasmada voz parecia reboar por todo o campus.

— Está certíssimo o Nietzsche, Deus tem que morrer mesmo — disse a certa altura da palestra, defendendo a “nova raça” dos “desconstrutores”. — Deus deve morrer, pra que a gente possa viver. Mas, depois da desconstrução, é preciso reconstruir tudo outra vez, porém em novas bases.

Falou, falou, falou. As meninas de Letras não compreendiam tudo o que dizia o poeta, mas estavam felizes por ouvir um poeta tão valente e “disruptivo” (palavra que ele usou várias vezes), em fala carregada daqueles lugares-comuns do niilismo que agradam sob medida aos jovens.

Mas creio mesmo que o ponto alto da palestra foi logo depois da palestra, no diálogo com o público. A jovem professora de Linguística se levantou e se aproximou do microfone da plateia; começou a falar de sua experiência em show da cantora Madonna, quando a pop-star esteve em São Paulo em 2012:

— Gente, fiquei sem respiração durante todo o show! A Madona representa, simplesmente, a quebra total dos velhos paradigmas! Ela é mais revolucionária do que Nietzsche e Karl Marx. Você não acha que a academia deve estar mais atenta aos novos veículos de “pensamento”? Um espetáculo pop não pode ser, também, uma “grande obra filosófica”? — perguntou ao palestrante, com risos de algumas meninas mais disruptivas.

O poeta-professor riu, fez algumas ponderações sobre a escolha revolucionária do nome “madona”. Palestra encerrada, as meninas de Letras aplaudiram freneticamente. Um dia seriam professoras e reproduziriam para suas classes, até o final da vida, as doces vantagens de viver sem Deus.

Fomos jantar com o poeta-revolucionário. Conversa-vai, conversa-vem, soubemos que na vida privada o poeta revolucionário é o intelectual mais metódico do mundo. Depois de algumas cervejas, entregou completamente o ouro:

— Cá entre nós, podem mudar o mundo à vontade, mas sem tanta pressa. Tenham um pouco de paciência com meus velhos hábitos…

Não é um caso isolado. Na verdade, mais preocupados com a regularidade do salário e das ejaculações do que com a coerência das ideias, boa parte dos professores fazem mais questão, hoje em dia, de apoiar sua frágil “metafísica” no marxismo e na psicanálise — base teórica que tem a solidez da espuma e durabilidade do vento —, enquanto a sua noção de felicidade continua tipicamente pequeno-burguesa: vivem e gastam como bons adeptos da sociedade de consumo, cujo sonho tríplice (segundo o poeta Bruno Tolentino) é tornar-se funcionário público, pagar um bom plano de saúde e morar em condomínio fechado. É a utopia já realizada; a outra, a socialista, é só meio de vida.

Os adolescentes barbocabeludos dos anos sessenta, retribalizados pelo ócio que só o capitalismo lhes permitiria gozar, sonharam com o fim da economia de mercado. Quando acordaram, estavam exemplarmente vestidos de paletó e gravata, defendendo reformisticamente o capital como a única via possível para o socialismo, o qual, aguardado sem nenhuma ansiedade nalgum lugar do futuro, não precisa de tanta pressa assim para chegar…

Mas as ideias desses funcionários apartados do mundo (cuja existência concreta nem sempre harmoniza com o que pensam) quase sempre têm consequências para o resto da sociedade. Outro poeta, Heine, já no começo da febre mudancista, profetizava coisas horríveis sobre essas plantas abstratas — os conceitos —, que amadurecem à sombra tranquila das estantes professorais e podem destruir toda uma civilização com seu veneno “disruptivo”. Exemplificava com Rousseau, o “ficcionista” do bom selvagem, que não parecia suspeitar qual seria o parteiro que daria plenamente à luz as suas ideias, algumas décadas mais tarde: ninguém menos do que Robespierre, que fez correr rios de sangue pela França.