Na cachola conservadora do velho homem da roça ou das pequenas cidades — sempre muito atentos à verdadeira natureza das coisas — jamais caberia a ideia do casamento homossexual, embora o fato da homossexualidade não lhe fosse estranho, pois isto sempre existiu (na roça, na cidade, nas metrópoles).

Não teriam grandes dificuldades de concordar com o filósofo espanhol Julián Marias, para quem palavra heterossexual é perfeitamente pleonástica e, portanto, dispensável, pois só pode haver relação sexual propriamente dita entre pessoas de sexos diferentes. Na mesma ordem de raciocínio, é possível afirmar algo semelhante em relação à palavra homossexual, do tipo composto, que apresenta uma notória contradição — ou, pelo menos, uma insuficiência semântica — nos termos que a formam, pois não pode haver relação sexual, estritamente falando, entre pessoas de sexo igual.

Mas como não? O que ocorre, então, quando duas pessoas do mesmo sexo se relacionam intimamente? O filósofo espanhol, que, à semelhança do homem da roça, também tinha o hábito de olhar para o mundo real, responde com a argúcia que lhe era frequente: trata-se de uma imitação da verdadeira relação sexual, ou seja, daquela que se dá entre um homem e uma mulher, dotados pela natureza das ferramentas adequadas para o exercício de tão nobre e produtiva função.

O homem rude do campo ou dos vilarejos não eliminaria dos homossexuais a liberdade de imitar papai-mamãe, pois ele sabia por experiência, por ter olhos de ver e ouvidos de ouvir, que a natureza humana tem lá os seus caprichos e mistérios, um dos quais é exatamente este: o da atração por seres do mesmo sexo. Na própria roça ou nas pequenas cidades, terá visto ou sabido de algumas pessoas que não se encaixavam completamente, fosse nos gestos, na fala ou até no comportamento mais íntimo, no padrão da maioria dos circunvizinhos. A própria zoofilia era de algum modo praticada e até tolerada, sem falar de outras perversões. No fundo, porém, ele teria concordado com Julián Marías: todos aqueles “diferentes” estavam envolvidos num processo mimético, atuando com ferramentas e objetos substitutivos, não originais.

O que era inaceitável, na visão do velho homem da roça e das pequenas cidades, é que essas parcerias miméticas entre pessoas do mesmo sexo pudessem vestir a mesma roupa jurídica da dupla marido-e-mulher (que possui a idade de Adão e Eva e é responsável pela própria existência dos que escolhem praticar aquele relacionamento sexual imitativo).

O caipira, sempre de pés no chão — e olhos nas nuvens para assuntar o tempo —, não poderia pensar de outro modo. Quando olhava para o seu pasto, no sítio, ou para suas galinhas, no quintal do vilarejo, jamais conceberia bois acasalando-se permanentemente com bois ou frangas com frangas. Seria o fim dos rebanhos e dos galinheiros, inadmissível para quem necessitava de ovos e leite.

Sempre excetuando-se os não poucos casos de desvios e perversões, a sua visão do sexo era prevalentemente conservadora, fundada sobretudo na experiência real e completando-se, por fim, com o que diziam as Escrituras (e o padre repetia nas Missas de antanho, quando ainda não era politicamente incorreto tocar nesses assuntos). Como poderia duvidar da realidade que estava sob seus olhos e narizes, ainda mais quando trazia o selo da verdade revelada?