No princípio era o “homem da roça”. Mais tarde é que surgiu o homem da pequena cidade e só muito depois o habitante das metrópoles, mais ou menos alheio a plantas e árvores, longe da terra e dos bichos, quase indiferente aos vaivéns da natureza e das estações.

Não nos interessa, aqui, o camponês idealizado dos poetas árcades ou românticos, nem a sua animalização deformadora operada por escritores realistas ou naturalistas (exemplo extremo é a caricatura do caipira feira por Monteiro Lobato), mas o homem da roça verdadeiro, sujeito às chuvas e trovoadas da condição humana, ferido pelo pecado original.

O “homem da roça” — é melhor chamá-lo assim, em vez do termo livresco “camponês”, para o diferenciar do homem urbano desenraizado —, era produto daquele “deplorável mundo antigo” que já não existe mais, e não tinha outra saída além de ser forte, pois a isto o obrigava a realidade muitas vezes inóspita em que vivia, com suas duras exigências. O prazer, para ele, era algo muito volátil, circunscrito a um único dia da semana, e isso quando algum imprevisto não lhe requisitava, também, um bom pedaço do sétimo dia, teoricamente feito para o descanso e a oração.

Além de treinado pelos vaivéns da natureza e das estações (cuja instabilidade nem sempre garantia ao trabalho o êxito esperado), pelas dificuldades em realizar as coisas mais banais do dia a dia (preparo dos alimentos, necessidades fisiológicas, cuidados com o corpo), crescia aprendendo a respeitar os que viveram antes dele, com os quais havia aprendido tudo o que sabia.

O homem da roça é conservador por natureza: não podia dar-se ao luxo de experimentar novas soluções para problemas que se repetiam quase sempre os mesmos, e para os quais os antepassados já tinham uma resposta convincente. Mudanças, quando existiam, eram algo imposto pela realidade e dependentes da inteligência individual, não por uma subjetividade disposta a novas experiências. Ele gostava de limites, amava as coisas mais simples, não apreciava a promiscuidade. Sentia-se geralmente mais atraído pela ordem do que pelo caos.

O “homem da roça”, quando persiste em subsistir nalgum recanto da alma do homem urbano, despreza a pretensão moderna de criar uma sociedade artificial, com a tecnologia substituindo toda e qualquer atividade individual; uma sociedade em que todas as funções humanas, materiais e mentais, sejam potenciadas por extensões mecânicas, elétricas e eletrônicas, como pretende agora a ideologia trans-humanista (que, de certo modo, já é uma triste realidade hoje em dia).

Quem tudo delega às ferramentas, em especial às eletrônicas, e cruza os braços, será necessariamente mais fraco: vai desfibrando-se à medida que corta as raízes com as coisas mais elementares: a terra, a água, o fogo, o ar. O homem atual é, espiritualmente, uma frágil porcelana chinesa. Delicado e desarmado, foi treinado desde cedo a delegar ao Estado, cada vez mais abstrato e ao mesmo tempo onipresente, a segurança e a proteção que antes esperava da família ou do círculo social imediatamente mais próximo.

O “homem da roça” está de fato condenado a desaparecer? Não obrigatoriamente. É possível ser e até estar na roça — nessa “roça íntima”, feita da plena consciência de que não se podem cortar os vínculos com as coisas elementares — até mesmo quando exilado num pequeno apartamento de cidade grande. Onde quer que esteja, pode o homem ser um caipira em espírito, não muito diferente daquele “pobre em espírito” de que falava Jesus no Sermão da Montanha.