[Há cinquenta anos, em 1971, o escritor húngaro Aron Gabor esteve em São Paulo e, na Associação Húngaro-Brasileira, falou de suas experiências como prisioneiro de um Gulag soviético. Um ano depois, em 1972, sairia no Brasil a tradução do primeiro volume de sua trilogia O grito da taiga: o romance-memorialístico A leste do homem. O jornal O Estado de São Paulo — que na época, ao contrário de hoje, era decididamente anti-esquerdista — publicou uma matéria a respeito, que segue abaixo].

As 18 horas de amanhã, uni homem de 56 anos, chamado Aron Gabor, contará a história de sua vida na sede da Associação Hungaro-Brasiieira, à avenida São João, 1583. Para alguns dos assistentes, ela não será muito diferente das narrativas dos homens que sofreram sob o regime stalinista na União Soviética. Para outros, será a repetição de uma experiencia vivida. Mas a história da vida de Gabor, contada para dois mil estudantes na Universidade da California, fez a. militante marxista Angela Davis chorar.

Na história de Aron Gabor, autor de cinco livros sobre a sua experiencia nos países comunistas, há lances dramáticos: ele trabalhava como lenhador numa floresta na Sibéria e para não morrer gelado a temperaturas que às vezes chegavam a 40 graus abaixo de zero, bebia razoáveis doses de vodka.

Isso, durante seus primeiros anos de exilio. Antes, durante os anos da ocupação nazista, Gabor se filiara à vanguarda do Exército Vermelho escrevendo para seus compatriotas, concitando-os a aderir à Resistencia. Mais tarde, já na Hungria libertada, ele continuaria escrevendo e dedicando-se a uma atividade que abraçara com paixão: encontrar mais de um milhão de compatriotas deportados pelos nazistas e fazê-los retornar à Hungria.

Era então secretário-geral da Cruz Vermelha Húngara. Sua missão não tinha nada de suspeito, mas Stalin estava no poder e os expurgos já tinham começado na União Soviética, alcançando todos os países satélites da URSS. Um dia, Aron Gabor foi preso: era acusado de espionagem a favor das potências ocidentais. Primeiro foi condenado à morte. Mais tarde, a pena seria comutada e Gabor foi então deportado para a Sibéria.

“Na Sibéria — conta Gabor — vivi durante 15 anos em Kemerovo, pequena localidade próxima da fronteira com a China. Kemerovo estava propositadamente longe de qualquer núcleo mais importante: nela estava instalada a Central da Industria Química Secreta da URSS na qual trabalhei durante 15 anos”. AIi, Gabor fez de tudo: trabalhou como motorista, lenhador, ajudou a construir estradas, chegando a mestre-de-obras. Ao fim de cinco anos conseguia uma façanha inédita para qualquer prisioneiro soviético: ganhou a medalha de Herói do Trabalho. “Um título quase tão honroso quanto o Prêmio Lenin: uma espécie de Prêmio Nobel do trabalho físico”, diz Gabor.

Depois disso, munido da comenda, Gabor não poderia continuar sendo prisioneiro: tornou se então cidadão soviético, título que o ajudaria a construir uma pequena casa, onde viveu durante dez anos.

Na década de 60, com a ascensão de Kruschev, o jornalista húngaro voltou para Budapest. “O nível de vida dos húngaros tinha mudado muito — frisa Ga- bor. Acho mesmo que na Hungria vivia-se melhor do que na União Soviética. Mas agora eu queria escrever o que bem entendesse e, então, resolvi fugir para a Alemanha, onde vivo até hoje, viajando de vez em quando para fazer conferências”.

No dia em que resolveu viajar, Aron Gabor tomou uma decisão: entregou as cem páginas de um manuscrito que escrevera durante os últimos anos de exílio na União Soviética a um marinheiro seu amigo, pedindo-lhe que os levasse até a Áustria para onde viajou. Mais tarde, o manuscrito seria acrescido de várias páginas, transformando-se na primeira obra de Aron Gabor: uma trilogia sobre os anos de exílio. Seguiram-se mais dois livros: A verdade em russo com o subtítulo “O prazer e o sofrimento de Ivanovitch”, onde comenta a sociedade soviética, e Aonde Vai o Americano, uma obra onde Gabor, baseado em sua experiencia na URSS, analisa os problemas da sociedade norte-americana.

“A prosperidade norte-americana me fascina — diz Gabor —, para mim é neste fato que se situa toda a razão de sua crise atual, inclusive o problema do racismo”.

Por isso, o jornalista húngaro acredita que “a solução da crise norte-americana só poderá ser resolvida dentro das categorias que levam em conta o grande desenvolvimento da sociedade norte-americana e o fato de que ela se encaminha para um estágio que nenhuma outra nação jamais atingiu: a sociedade do lazer que se seguirá à sociedade do consumo”.

Sua viagem ao Brasil, porém, não tem nada que ver com suas preocupações com a sociedade norte-americana: atualmente Gabor se dedica a estudar a assimilação das comunidades húngaras em outros países. “O problema das sociedades, como o problema das comunidades, não deve ser julgado dentro dos estreitos critérios ideológicos. Em minha vida aprendi que a condição humana na sua individualidade é muito mais importante do que o que capitalismo e comunismo possam oferecer*’.

E foi falando sobre este assunto e sobre sua vida que Aron Gabor comoveu Angela Davis depois de 4 horas de debate.

[O Estado de São Paulo, 26 de novembro de 1971, p.15]