A Missa antiga, chamada hoje em dia de Missa tridentina, em referência ao Concílio de Trento, remonta pelo menos ao século IV, quando o cristianismo deixou de ser perseguido pelo Império Romano. Desta época até o final do século XX, por quase mil e seiscentos anos, a Missa celebrada na maior parte do mundo ocidental era dita na mesma língua e possuía idêntica estrutura litúrgica. Ou seja: a Missa e a nossa civilização (dita ocidental, construída pela Igreja Católica), têm ambas a mesma idade. Como rito máximo e principal oração da Igreja, o seu principal fruto foi haver colaborado, de maneira substantiva, na formação e desenvolvimento de nossa civilização.

Durante muito tempo, por aproximadamente mil anos — do canto gregoriano até Palestrina —, a velha Missa foi o principal gênero musical do Ocidente e era na Igreja que estavam os grandes compositores. 

Como o “teatro” da Missa eram os templos católicos, e a sua dignidade de celebração do Santo Sacrifício de Cristo exigia o melhor dos “cenários”, os arquitetos foram convocados a dar o melhor de si para a sua construção. Foi assim que se deu o milagre arquitetônico das catedrais góticas medievais, milagre que reapareceria em períodos artísticos subsequentes, sobretudo no Renascimento e no Barroco.

As paredes e tetos dos templos católicos foram decorados pelos principais artistas plásticos da Europa, com seus afrescos e esculturas. A arte do Ocidente não teria sido o que foi sem o trabalho de decoração dos templos (que, repita-se, existiam sobretudo em função da celebração da Missa).

Celebrada em latim durante mais de 1500 anos, a Missa católica contribuiu para manter vivo e bem disseminado o principal veículo de expressão literária, científica e filosófica da nossa civilização. A Missa ajudava a manter uno e coeso, do ponto de vista cultural, um continente com tantas línguas nacionais diferentes. Os estudantes que chegavam a Paris ou Bolonha para fazer universidade, vindos dos mais diversos países europeus, cada qual com sua própria língua vernácula, só se podiam comunicar nas universidades com esse “inglês” da época, que era o latim.

Do ponto de vista moral e espiritual, a Missa — celebrada por tantos santos, nos últimos dois mil anos — ajudava a depurar a consciência dos indivíduos, através da pregação nas homilias, onde se apontava o caminho reto a seguir; através das confissões, que precediam as celebrações e nas quais as almas se purificavam; e através da comunhão, que em seguida integrava o cidadão arrependido na comunidade eclesial. Mais que a Missa antiga, nada terá contribuído tanto para o aprimoramento moral na nossa civilização.

“A crise da Igreja, em que nos encontramos hoje, resulta em grande parte do desmoronamento da liturgia”, disse certa vez o Cardeal Ratzinger. Foi certamente essa consciência que, em 1971, levou um grupo de intelectuais com mais de cem signatários, não necessariamente composto só de católicos — como o escritor ateu Jorge Luís Borges e o violinista judeu Yehudi Menuhin —, a redigir um memorando dirigido a Paulo VI, no qual se pedia a manutenção da Missa tradicional. Entre outras coisas, solicitava-se que o papa “reconsiderasse, com a máxima gravidade, a tremenda responsabilidade com o que ficará perante a história do espírito humano, pelo fato de não consentir em deixar viver perpetuamente a Missa tradicional”. (Citado por Roberto de Mattei em O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita. São Paulo, A & C Editora, 2013)