[Os progressistas, na Igreja, estão preocupados com a crescente onda de jovens padres e seminaristas interessados na velha liturgia, pois sabem que, junto com a liturgia, sobreviveria uma mentalidade mais ortodoxa que não agrada aos que pretendem vitorioso o famoso “espírito do Concílio” (maneira disfarçada de referir-se ao neomodernismo). Aproveitando a situação de enfraquecimento das paróquias, gerada pela peste chinesa, a ideia parece ser a de fazer um grande “reset” litúrgico na Igreja, banindo definitivamente o rito antigo, cujo contraponto com o rito novo — e este era o propósito de Bento XVI, quando facilitou a celebração da Missa chamada tridentina — só trazia benefícios a este último, que se enriquecia, aqui e ali, ao reincorporar elementos banidos com a reforma empreendida por Paulo VI em 1969].

Há já algum tempo, os sinais de alerta a propósito do Summorum Pontificum se multiplicam: a maioria dos bispos italianos e os pesos-pesados ​​da Cúria, em particular na Secretaria de Estado, convenceram o Papa de que a tradicionalização litúrgica do jovem clero é “preocupante” e que o “direito à missa tradicional”, instituído pelo motu proprio de Bento XVI, foi um atentado ao Vaticano II.

Na segunda-feira de Pentecostes, abrindo em Roma a reunião da Conferência Episcopal Italiana (CEI), o Papa primeiro fez uma forte reprimenda aos bispos italianos — pois demoram para colocar a Igreja italiana num estado generalizado de sínodo, seja porque o consideram uma ideia custosa ou totalmente desnecessária.

Depois, quando os jornalistas já não estavam mais na sala de debates, o Papa abordou um tema que une muitos bispos na Península: a execração da Summorum Pontificum [motu próprio de Bento XVI, em que facilitava a celebração do rito antigo da Missa]. Francisco confirmou a próxima publicação de um documento, que foi instado a escrever, com o objetivo de “reinterpretar” o motu proprio de Bento XVI. A publicação atrasou-se, porque o documento parece ter provocado objeções e freios, especialmente por parte do Cardeal Ladaria e da Congregação para a Doutrina da Fé, que argumentou que provocaria oposições incontroláveis em todo o mundo. Apesar de tudo, a Secretaria de Estado pressionava pela publicação do texto, cujos dispositivos essenciais seriam os seguintes: as comunidades que celebram na forma antiga podem continuar a fazê-lo; por outro lado, os padres diocesanos devem agora obter permissão específica.

É óbvio que este documento, inaplicável em muitos países, incluindo a França, terá antes de tudo um significado simbólico: fazer com que a celebração da Missa tradicional não seja mais um direito, mas uma exceção tolerada.

O tradicional grupo de pressão contra a missa tradicional, na Universidade Santo Anselmo, na Cúria e na CEI, leva o Papa a um grande erro político. O mudo descontentamento de todo um segmento de católicos diante de certas abordagens doutrinárias, a frouxidão diante dos exageros alemães, a multiplicação de afirmações desconcertantes (para dizer o mínimo) do Papa, corre o risco de se transformar num verdadeiro “basta”. Em vez de se esforçarem por compreender o que pensa e aspira uma parte viva do povo cristão, tais pessoas o impeliriam ao desespero e à exasperação.

A paz da Igreja, especialmente a paz litúrgica, para a qual Bento XVI muito contribuiu com seu sábio texto libertador, está deliberadamente dilacerada: anuncia-se um retorno aos piores anos do pós-concílio.

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