[Do livro Estrela solitária, 1940. Augusto F. Schmidt integra o grupo dos poetas católicos brasileiros, contemporâneos ao modernismo. Viveu entre 1906 e 1965. No final da vida, misteriosamente, distanciou-se da Igreja].

Meu Deus, eu te agradeço a alegria desta hora.
Meu Deus, eu te agradeço esta música que estou ouvindo,
Que está no meu ser, no meu coração e no meu espírito.
Meu Deus, eu te agradeço este canto perfeito e claro,
Que está saindo da minha alma nesta hora luminosa.

Meu Deus, eu te agradeço esta alegria,
Este ritmo fecundo, esta harmonia transfiguradora
Que está revelando aos meus olhos a beleza sonora deste mundo.

Ritmo, equilíbrio, tranquilidade de terra fecundada,
De vergéis, de árvores, de frutos de ouro.
Ritmo de brotos novos, harmonia de sombras e de fontes frias.
Doçura de jardins, de flores simples, de rios correndo.

Meu Deus, eu te agradeço a glória desta vida.
Sinto a música da primavera
E o esplendor da manhã inocente e lúcida.
Sinto a bondade dos homens simples.

Meu Deus, eu te agradeço me teres dado esta quieta alegria.
Meu coração está cheio de sons de sinos.

Ouço sinos cantando a glória, a beleza, o esplendor do mundo.
Ouço sinos sonoros cantando a doce alegria da vida quieta.

Meu Deus, eu te agradeço os sinais de que te encontrei
Na piedade dos pobres ninhos macios,
Na piedade dos pequeninos seres humildes,
Na compreensão das delicadas flores.

Meu Deus, eu te agradeço o nascimento desta mansa lua
Nos céus tão frios deste princípio de noite.