O mundo espiritual é espantosamente complexo. Perto dele, a intuição poética e o raciocínio lógico mais sofisticado não passam de balbucio de recém-nascido. Diante da experiência dos santos, ficamos permanentemente perplexos, sem entender quase nada de sua renúncia e de sua capacidade de união com Deus. Embora fascinados pela vida mística desses homens e mulheres, não temos coragem, por falta de confiança na graça divina, de afrontar essas veredas íngremes e misteriosas que dão acesso àquela realidade superior, restando-nos somente o consolo da arte e das outras vias mentais de aproximação do ser, incomparavelmente mais simples, como a filosofia e as ciências humanas. Conhecemos bem aquela “tristeza de não ser santos”, a que se referia Léon Bloy.

Quando folheamos um ensaio psicológico sobre um aspecto qualquer da realidade comportamental mais imediata (sem nenhum desprezo pela validade prática desses estudos), e o confrontamos com as contemplações místicas de uma Santa Teresa d’Ávila ou um São João da Cruz, parece que estamos diante de duas ordens cognitivas separadas por um abismo intransponível. Percebemos quanto o ser humano é maior do que revela nossa vã e provisória ciência. O pior é quando o psicólogo, como fez Freud, procura cancelar esse abismo, cobrindo-o com o véu de fumaça de uma explicação causal qualquer, buscando convencer-nos da não existência dessa outra ordem de fatos, que é o mundo sobrenatural, chamuscando-o com dois ou três conceitos de questionável verificabilidade.

Por que a santidade é tão difícil? Certamente, por ser muito mais natural o pecado que a virtude. Pense-se na diferença entre a literatura hagiográfica e a literatura ficcional, aliás misteriosamente complementares. Enquanto os hagiógrafos escrevem sobre homens e mulheres esvaziados de si mesmos, submissos à graça, experimentando o sofrimento de forma absolutamente incompreensível para nós — perfeitos habitantes da cidade celeste —, os poetas, romancistas e dramaturgos falam de pessoas permanentemente seduzidas pelo fruto da árvore proibida, indecisas entre si e o próximo, o pecado e a graça, a humildade e a vanglória, a abnegação e a voracidade, entreolhando-se com espanto e ódio, inarredavelmente presos à cidade terrena.

Iluminadora, a propósito, é a famosa passagem d’A cidade de Deus, XIV, 28, em que Santo Agostinho diz tudo o que precisamos saber a respeito dos santos que não conseguimos ser:

“Dois amores fundaram duas cidades, a saber: o amor-próprio levado ao desprezo a Deus, engendrou a cidade terrena; o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, a celestial. Gloria-se a primeira em si mesma e a segunda em Deus, porque aquela busca a glória dos homens e tem esta por máxima glória a Deus, testemunha de sua consciência. Aquela ensoberbecesse em sua glória e esta diz a seu Deus:

— Sois minha glória e quem me exalta a cabeça.

Naquela, seus príncipes e as nações avassaladas veem-se sob o jugo da concupiscência de domínio; nesta, servem em mútua caridade, os governantes, aconselhando, e os súditos obedecendo. Aquela, nos seus potentados, ama a própria força; esta diz ao seu Deus:

— Amarei só a ti, Senhor, que és minha força.

Por isso, naquela, seus sábios, vivendo segundo o homem, têm buscado só os bens do corpo, ou aquele do espírito, ou ambos; e também aqueles que têm podido conhecer a Deus, não o têm glorificado como Deus, mas desvaneceram-se em seus pensamentos e obscureceram-se-lhes o néscio coração…

Na outra, ao contrário, não há sabedoria humana, mas piedade, que rende ao verdadeiro Deus o culto devido, e que espera como recompensa na sociedade dos Santos — não só dos homens, mas também dos anjos — que Deus seja tudo em todos.”

É possível aprender alguma coisa com os santos? Descobrimos algo parecido à felicidade — que nada tem a ver, obviamente, com a alegria dos sentidos — quando enfim convocamos o auxílio de algum grande santo, depois de abrir mão de pretender decidir, só com nosso limitado discernimento pessoal, sobre as questões mais graves da vida. A santidade perfeita dos grandes santos é a única janela deste mundo que se abre para o outro lado, o lado verdadeiro, a verdade sem nenhum véu de disfarce. Eles souberam, afinal de contas, como viver e como morrer segundo a vontade de Deus.