Nalguns poucos filmes ingleses ou americanos, se veem professores universitários vivendo com suas famílias em casas do próprio campus — no caso da Inglaterra, vivendas em simpático estilo medieval —, visitando-se, recebendo alunos, hospedando palestrantes de outras universidades, de certo modo passando a ideia de que entre o docente e o ambiente acadêmico haja uma perfeita integração, tanto de vida como de espírito.

Tal construção idílica não resiste ao menor sopro de vida real. Mesmo onde isto ainda pareça existir, já foi totalmente revestido do pragmatismo contemporâneo, que já não deixa mais espaço algum para o velho otium, e tudo o que ela possa sugerir, como repouso, retiro, solidão, calma, sossego, tranquilidade, e os frutos espirituais que essas horas vagas possam ocasionar.

O professor residente é só mais um funcionário da universidade — um “colega de departamento”, como se dizia antigamente, quando os institutos superiores se subdividiam de acordo com as disciplinas de uma determinada área —, encarregado de algumas funções comunitárias específicas para as quais a presença em tempo integral muito facilita, tais como planejamento de eventos acadêmicos, participação nas inúmeras e nem sempre necessárias comissões, maior disponibilidade para as infindáveis reuniões e, sem dúvida, muito almoço e janta com colegas e alunos que torcem para o mesmo partido político.

Na universidade brasileira (que não parece ter conhecido a idílica modalidade do professor residente), os intelectuais acadêmicos são hoje, antes de tudo, colegas de disciplina ou de departamento, pessoas que, embora sem laço sanguíneo, são obrigadas a passar juntas uma parte considerável da vida, se não a maior parte, sem outros vínculos além dos profissionais e, cada vez mais, ideológicos, que transformaram a convivência acadêmica em mera luta pela ascensão na carreira, no plano interno, e, numa perspectiva mais geral, em luta pelo próprio poder político.

Já ninguém ousa esperar que possam formar uma corporação espiritual, como ocorreu na Idade Média, quando nas universidades ensinavam religiosos dominicanos, beneditinos ou franciscanos. No entanto, esqueceram-se completamente de que são sustentados pela sociedade a que pertencem, antes de tudo, para serem servidores da inteligência. Debate sincero e “científico” de ideias é a última coisa que lhes passa pela cabeça, mesmo porque, no essencial, pensam de maneira muito subserviente à metodologia da moda imperante em sua área, via de regra adaptada às expectativas das agências financiadoras de pesquisa.

As regras do jogo intelectual e os métodos para sua execução vêm de longe, das usinas geradoras de ideias na Europa e nos EUA, onde ficam as verdadeiras reitorias e os verdadeiros reitores — o “rector”, aquele que conduz, rege, governa mentalmente os professores, com muito mais poder do que os reitores meramente administrativos, escolhidos pelos votos de alunos, professores e funcionários. Os reitores ideológicos de hoje, como Derrida, Foucault, Lyotard, Habermas, Baudrillard — descendentes dos Kant, Hegel, Marx, Nietsche e Freud de ontem — possuem a bússola que governa o cérebro docente nas humanidades; são eles que dão o tom a toda a sinfonia acadêmica.

No mais, são como todos os colegas do mundo, sejam acadêmicos ou não, no serviço público ou privado. Cada vez mais, as obrigações burocráticas roubam um tempo considerável do trabalho universitário. Exemplo são os questionários que, multiplicados com a informática e a internet, os professores têm de mandar continuamente para os órgãos administrativos, para provar que ainda são funcionários, estão vivos e ativos, dão aulas, produzem artigos, palestras, livros, capítulos de livros, viajam para congressos, participam de bancas examinadoras.

Todas essas atividades dão a impressão de que a máquina acadêmica anda a todo vapor, e que o dinheiro empregado na universidade pelo Estado, ou pelas instituições que financiam pesquisas, esteja plenamente justificado. Na verdade, não há nada mais distante da atividade “espiritual” (compreendida essa palavra no sentido de vida inteligente, desligada de qualquer imediatismo pragmático) do que um campus universitário. Um “colega de departamento” que se preze já pouco se importa em saber quais livros o vizinho de sala está lendo; importa mais conhecer a sua posição política.