Nascido em Salvador, Bahia, em 1756, e falecido no Rio, em 1836, José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, foi um dos intelectuais brasileiros mais representativos no período joanino e no Primeiro Império, ocupando vários cargos públicos: ensinou hebraico e grego no Real Colégio das Artes, em Coimbra; de volta ao Brasil, enquanto advogava na Bahia, continuou professor (de filosofia e de grego); chamado ao Rio em 1808 por Dom João VI, foi nomeado desembargador e mais tarde censor encarregado do exame das obras destinadas à publicação na tipografia real; foi deputado antes da independência e senador no período pós-independência.

Homem de vasta e sólida cultura — estudou filosofia e teologia, direito e economia —, lia o hebraico, o grego e o latim, além das principais línguas europeias de sua época (francesa. Inglesa, italiana e espanhola). Sua formação intelectual se deu na Universidade de Coimbra, que naquela virada do século XVIII para o XIX ainda era uma trincheira conservadora na Europa marcada pelos avanços revolucionários.

Cairu não era um católico jansenista, que visse o ser humano como presa irremediável da corrupção moral, concepção que, pelas vias do calvinismo, fundamentava o liberalismo de origem inglesa que ele, logo no primeiro Império, desejava transplantar para o Brasil. Acreditava que a moral cristã pudesse enfrentar, e com dificuldade dominar, as paixões que moveriam o ser humano na produção de riquezas. Quis conciliar os princípios da economia liberal com a fé cristã.

Escreveu uma obra numerosa, que ia de trabalhos na área da economia política até manuais de formação moral. Influenciado pelas ideias de Adam Smith e Edmund Burke, o visconde estava convicto de que o único caminho econômico para o desenvolvimento do Brasil era o do livre-comércio e o fim do escravagismo, mas para atingir essa meta necessitava de cidadãos livres. E a única maneira de preparar os cidadãos para a liberdade (a liberdade que seria possível neste mundo marcado pelo pecado original) era educando-os na moral católica.

Por isso, ao lado dos livros de economia, o visconde conservador — inimigo da Revolução Francesa, mas aberto às reformas necessárias — escreveu várias obras destinadas à formação do caráter, o combate dos vícios, o aprendizado das virtudes. De pouco valia abrir todos os portos do país ao mercado das nações, se as almas continuavam fechadas às virtudes mais elementares da vida cívica. É uma lição que continua válida até hoje, principalmente agora, em que o país faz uma inesperada experiência conservadora no poder executivo federal e começa a ter uma pequena militância à direita nas redes sociais.

Para Tristão de Athayde, se José Bonifácio foi o patriarca da nossa independência política, Cairu terá sido o patriarca da nossa independência moral  e intelectual. Escreve Tristão sobre o intelectual Cairu:

Pressentindo de longe, a aproximação do tropel revolucionário e a agitação do espirito de “anarquismo” ou “jacobinismo”, como então se dizia, jogou-se desde logo, com desassombro e sem temor, contra a corrente demagógica, traduzindo Burke; escrevendo biografias; mostrando os benefícios do Governo de D. João VI, e defendendo o espírito de conciliação, pelo Reino Unido, com a capital no Rio de Janeiro, contra o de imediata separação; apregoando os benefícios da ordem, e acompanhando em pequenas gazetas por ele mesmo redigidas o movimento de independência, num diapasão cada vez mais inflamado em favor do rompimento definitivo entre Portugal e Brasil.

Inspirado sempre no espírito britânico, que seus adversários chamavam de anglomania, foi talvez o maior esteio da grande influência intelectual e política que teve a Inglaterra sobre o Brasil na primeira metade do século passado. E graças a essa influência e à ação de homens como ele, que para aqui canalizaram o equilíbrio britânico contra o jacobinismo francês daquela época — é que o Brasil pôde em grande parte livrar-se da contaminação revolucionária, que certamente o levaria ao desmembramento, como levou a América Latina.

Podemos dizer que o Brasil não deve a Cairu apenas a influência decisiva para a sua independência económica, de 1808, que precede de catorze anos a sua independência política. Deve-lhe também em grande parte a sua unidade cultural e política, apesar de nunca ter ele participado do poder público, talvez pelo gênio agreste e independente e pela sua predileção pela vida de gabinete. Como homem de estudo, aliás, é que a sua figura avulta no mesmo plano de um José Bonifácio.