O filósofo italiano Stefano Fontana publicou, no último 26 de abril, uma interessante análise da atual situação sanitária do mundo. Não minimiza a doença da covid, que já dura um ano e não pode ser considerada irrelevante do ponto de vista antropológico, mas admite que não se trata apenas de um vírus. O problema adquiriu novas dimensões.

Segundo ele, as medidas sociais e sanitárias que foram, e ainda são adotadas para enfrentar a peste chinesa, dependem de uma certa concepção do ser humano, de uma particular visão antropológica, que já existia antes da covid e que se pretende incrementar a partir “das ruínas das políticas anticovid por aqueles que têm as alavancas do poder em suas mãos”.

A visão do homem que possui essa gente é a da modernidade: o homem é um indivíduo isolado, atomizado, não relacionado, gerido por outro Grande Indivíduo, o Estado. Quando apareceu a covid, a doença logo foi vista como algo que atinge principalmente indivíduos e não coletividades, e as políticas antivírus são implementadas pela máquina do sistema sanitário, que é, antes de tudo, uma máquina política.

A ideia básica, insiste o filósofo, é que o indivíduo deve depender da máquina sanitária de modo que fique dependente da máquina política. O indivíduo não passaria de uma pura e desarmada unidade numérica diante da Grande Máquina dirigida pelo Ministro da Saúde. Ao primeiro cabe esperar pelas orientações e dados de contágio fornecidos pelo segundo, que também saberá enviar a ambulância na hora certa de interná-lo numa dependência de terapia intensiva da Grande Máquina.

Esse indivíduo reduzido a número já não necessita de relações humanas, que devem ser eliminadas por razões de higiene (que, no fundo, não passam de razões políticas). Os próprios familiares são considerados como inimigos potenciais.

O clínico geral não deve ser consultado: um tratamento doméstico personalizado, com medicamentos experimentais, não harmoniza bem com a ideia do indivíduo-massa, anônimo, coisa entre coisas, igual a todos os demais. A vacina permanente se ajusta melhor a tal concepção de ser humano. Por isto, os confinamentos e limitações — funcionamento de escolas, restaurantes, hotéis etc. — servirão tanto ao indivíduo que vive numa cidade com vários milhões de habitantes ou num pequeno vilarejo do interior.

As políticas anti-covid pressupõem, segundo Fontana, uma massa humana desencarnada, que parece mesmo feita para este fim: desencarnar-se e assumir cada vez mais a condição pela pura unidade numérica, um apêndice passivo do sistema. Sem uma natureza própria e indiscutivelmente humana, não passa de algo plasmável, potencialmente mutável como matéria em evolução.

Isto fica claro na forma como os hábitos são tratados pela Grande Máquina: no “novo normal”, podem ser mudados à vontade, mesmo aqueles não intercambiáveis, que têm a ver com a vida humana verdadeira, como guardar dias santos, visitar a parentes e amigos doentes, fazer obras de caridade presenciais e não à distância. Já não servem as velhas maneiras de trabalhar e aprender, rezar e chorar os mortos.

É um homem “heterodirigido”, submetido a senhas de acesso e cartões eletrônicos, guiado por uma entidade supra-humana que o priva de consciência e responsabilidade (por serem perigosas tanto para a saúde pública, como para o bom funcionamento da sociedade). A Grande Máquina, comandada por ateus, lhe dirá em quais cientistas convêm acreditar ou não, o que deve ser dito e o que é melhor calar.

Convém que esse “indivíduo não relacionado, terminal passivo do sistema, plasmável pelo poder, homem-massa heterodirigido, bloqueado pelo medo induzido”, seja também ele salutarmente ateu. “Todas essas coisas”, finaliza Stefano Fontana, “que já foram ditas por Thomas Hobbes, o pai (desesperado) da política moderna”.