O grande romancista Graham Greene, sempre catalogado entre os maiores romancistas católicos do século XX, experimentou a depressão desde a infância e teve uma vida espiritual atormentada (suas duas autobiografias o testemunham). Gostava de uma frase de Thomas Browne, que exprimia a sua própria luta interior: “Há um outro homem, dentro de mim, que está zangado comigo”. E, de fato, tentou algumas vezes o suicídio.

Graham Greene nasceu, em 1904, na pequena cidade histórica de Berkhamsted, na região leste da Inglaterra. Foi jovem para Londres e estudou em Oxford. Aos vinte e um anos, em 1926, conheceu aquela que seria sua esposa, Vivien Dayrell-Browning, jovem de vinte anos que, quatro anos antes, tinha escandalizado a própria família ao deixar o anglicanismo e fazer a profissão de fé católica. Ela teve um desenvolvimento intelectual precoce e aos treze anos já publicava seu primeiro livro, prefaciado por ninguém menos do que Chesterton, que era amigo da família.

No início do relacionamento com a católica Vivien, o agnóstico Graham sentiu a necessidade intelectual de conhecer melhor a fé professada pela moça, e inscreveu-se, por esta única razão, numa paróquia londrina para o curso de catequese. Contudo, após alguns encontros com o sacerdote, já não tinha dúvidas sobre a plausibilidade lógica do catolicismo.

E, assim, esse homem, intelectualmente convertido, aceitou batizar-se na Igreja romana. Conta, em sua autobiografia, que quando foi recebido na Igreja, não se sentiu tocado emocionalmente, mas apenas intelectualmente convicto da verdade católica. Praticava formalmente a religião: ia à Missa aos domingos, confessava-se mais ou menos uma vez ao mês e, nas horas vagas, lia sempre com interesse os teólogos, ora fascinado, ora com repulsa.

Foi nesse contexto que ele e Vivien se casaram, tiveram dois filhos e permaneceram juntos por vinte anos, de 1927 a 1947. Quando Graham pediu o divórcio, a católica Vivien recusou, e eles permaneceram oficialmente casados até 1991, quando o marido morreu, depois de mais ou menos trinta anos de relacionamento com Yvonne Cloetta, sua última amante.

Graham Greene deixava, então, uma obra literária das mais respeitadas, no terreno da ficção. Alguns de seus romances, entre as dezenas que publicou, como O condenado (Brighton Rock,1938), O poder e a glória (The power and the Glory, 1940), O cerne da questão (The Heart of the Matter, 1948), Fim de caso (The End of the Affair, 1951), inscrevem-se na lista permanente dos grandes romances contemporâneos.

O grande conflito interior de Graham Greene — Deus existe ou não? —, aliado à bipolaridade psíquica, fez de sua vida um verdadeiro inferno, mas, é preciso reconhecer, foi a matéria-prima privilegiada de seus romances carregados de verdadeira humanidade, nos quais o ser humano aparece por inteiro, corpo e espírito, ao contrário da maioria de seus colegas de ofício, que ideologicamente tendiam a reduzir o comportamento humano a algo por demais simplificado, à margem da realidade sobrenatural.