O que é que nos compete fazer diante do fato irreversível da morte alheia, quando a iniludível, a indesejada das gentes — assim a chamou o poeta Manuel Bandeira — visita uma pessoa querida e a arrasta à cama gélida de uma enfermaria?

Eis uma pergunta difícil de responder. A verdade é que nunca entramos espontaneamente em hospitais: para lá somos arrastados, seja pela corrente da misericórdia ou da obrigação. Jamais algum hospital figurará em roteiros turísticos. Entre as paredes frias, percorrendo suas escadas e corredores, invejamos os funcionários da saúde quando passam por nós com sua profissional indiferença, manejando remédios, bisturis ameaçadores e outras ferramentas sofisticadas.

Contamos os segundos para sair dali. Juramos que nosso lugar é lá fora, no torvelinho do dia a dia, esquecidos de que dispomos de algo muito precioso para esse momento crucial na vida do doente que visitamos: palavras de conforto. São as palavras mais valiosas do dicionário! Muitos de nós, convictos da salvação eterna das almas, trazemos ainda uma pequena bagagem de preces pessoais que, silenciosamente, podemos soprar no ouvido misericordioso de Deus.

Mais do que os médicos, preocupados com o lado técnico da doença, nós estamos livres para assistir a um confronto privilegiado, que ali se oferece aos nossos olhos espantados: a luta entre a alma e o corpo. Percebemos o esforço desta última em segurar a primeira por mais um pouco de tempo, retendo-a no mundo que tanto a agradava. Notamos como a alma, apesar de sua natureza espiritual, visivelmente sofre com a possibilidade de perder o frágil vaso de barro que tão estreitamente a contém. Esse sofrimento da alma não será um dos principais indícios de sua vocação eterna de viver enlaçada a um corpo, coerente com a promessa cristã da futura ressurreição dos corpos?

É bom não esquecer: um dia, para nossa surpresa, alguém muito próximo estará prestes a deixar este mundo ilusório e empreender a grande viagem rumo ao país verdadeiro, através do mar desconhecido da morte — estranha peregrinação da qual nós, espectadores imóveis no porto, só veremos o impulso inicial da partida do barco. O resto, a parte mais importante do trajeto, permanecerá para sempre irrevelável aos nossos olhos limitados de criaturas.

A presença de um corpo moribundo está definitivamente fora da nossa capacidade humana de compreensão. Em sua luta de vida e morte — de vida que, com a sua impotente força humana, procura vencer a morte —, ocorre a mistura de duas coisas muito distintas, embora complementares: a condição humana, da qual julgamos saber muito, e o mistério divino, do qual não sabemos quase nada, além daquilo que Jesus revelou e a Igreja ensina (um “quase nada” que, no entanto, é suficiente para a salvação eterna das almas).

É o que podemos oferecer aos que partem — companhia, palavra amiga e oração suplicante —, quando o destino nos colocar à beira deste que é um dos maiores privilégios da vida: estar diante de alguém que poderá presenciar, antes de nós, a inimaginável realidade do outro mundo, a face oculta de Deus finalmente desvelada.