Em nossa época, quando o homem se liberta do chão, da aldeia, da “terra natal”, e se transforma em cidadão do planeta, a literatura e demais artes só parecem ter sentido se assumirem uma função mnemônica: lembrar ao ser humano a sua real e modesta proveniência. É isso o que ela pode e deve fazer: trazer de volta à realidade o ser humano, que acredita, como criança, ter descoberto a suprema forma de felicidade com a tecnologia avançada, sobretudo com essas sofisticadas maquininhas de produzir e multiplicar informações. Mal percebemos o quanto as forças da destruição se espalham pelo atual planeta sem fronteiras.

Como na alegoria platônica, à literatura e aos bons filmes caberá em nossos dias o papel de avisar que continuamos presos na caverna da condição humana. Dando as costas à única saída da prisão — que levaria ao espaço aberto, azul e sobrenatural que há do lado de fora, e ao qual ainda não temos acesso direto —, preferimos crer que a verdadeira realidade é o pouco de luz que o sol projeta no fundo da caverna.

A grande literatura avisa que estamos enganados, quando chamamos de realidade àquilo que não passa de uma grande ilusão. São sonhos sonhados por sombras. Nada mais.

No entanto, mesmo encerrados no fundo de uma caverna, escravos de vícios e paixões, a vida é bela, estranhamente bela. Não teria existido a grande literatura se o homem não estivesse permanentemente sujeito à corrupção e à morte. A mais alegre e celebratória das obras de arte não deixe de ser, por isso mesmo, uma espécie de elegia, pois o que é belo se avilta e corrompe. Mas, curiosamente, a arte mais pessimista não deixa de ser um canto de afirmação da vida, pois se o homem não tivesse a intuição de sua eternidade jamais tomaria da caneta para garatujar seus desconcertos e inquietações.

Essa função recordativa da grande arte — de avisar que estamos olhando para o lugar errado, que a verdadeira realidade não se encontra na falsa imagem projetada ao fundo da caverna, mas nas sombras dos nossos vícios e paixões desordenadas, e lá fora, no sol divino que ainda não podemos encarar diretamente — deixa muitas vezes os poetas e os artistas exageradamente vaidosos, donos da tola e ilusória presunção de se crerem novos Prometeus, bons ladrões que, como Robin Hood, roubam o precioso fogo divino para o benefício do gênero humano.

Não são raras as vezes em que os poetas buscam colocar asas angélicas nas costas da humanidade, esquecidos de nossos pés de chumbo. A literatura não existe para salvar nada e ninguém para este mundo, como parece ser o sonho do chamado “transumanismo”; quem sabe, antes, pudesse salvar o homem do excesso de confiança em si mesmo, através das armas sempre eficientes do humour e da sátira.