Nascido na Igreja Ortodoxa Russa, [há 150 anos], Stravinsky se aproxima da Igreja e da religião novamente por volta de 1930. Fez amizade com o filósofo católico francês Jacques Maritain, leu a Vida de São Francisco do escritor dinamarquês Johannes Jorgensen. Escreveu, em 1930, a Sinfonia dos Salmos para coro e orquestra, que está entre os maiores atos de fé na música de todos os tempos, e a Missa Latina para coro e instrumentos de sopro, que terminou de compor em 1948 nos Estados Unidos, onde se estabeleceu por oito anos.

Stravinsky via a Igreja Católica com certa simpatia: “Cresci com profunda admiração pelo catolicismo, e fui levado a isso pela minha educação espiritual e pela minha natureza (sou muito mais ocidental do que oriental). A religião ortodoxa que professo é muito próxima do catolicismo. E não seria surpreendente se um dia eu me tornasse católico “(E. Zanetti, Guida a The Rake’s Progress, La Biennale di Venezia, XIV Festival Internazionale di Musica Contemporanea, Venezia, 1951, p. 9).

O Papa João XXIII, no primeiro mês de seu pontificado, recebeu Stravinsky em audiência privada, no Vaticano, em 26 de novembro de 1958, poucos dias antes do maestro dirigir a Orquestra da RAI em Roma em um concerto com sua música (Les noces, Sinfonia em três movimentos e Cenas de balé). Enquanto era Patriarca da Sereníssima, Papa Roncalli o conheceu em 10 de agosto de 1956, em Veneza, quando deu sua aprovação para a estreia mundial, sob a direção do autor, em 13 de setembro do mesmo ano, na Basílica de San Marco, do Canticum sacrum ad honorem Sancti Marci nominis, para tenor, barítono, coro e orquestra, de autoria do compositor russo (no âmbito do 19º festival de música contemporânea).

A conversa com o Papa, na presença de Robert Craft, maestro americano e assistente de Stravinsky, “foi muito agradável a ambos” (R. Craft, «Inguarum» Stravinsky e Adriana Panni, in A. Quattrocchi, Novecento: studi in onore di Adriana Panni, EDT, Torino 1996, p. 15). Foi também uma oportunidade para falar de Veneza e relembrar aquele concerto, definido por alguns críticos como um “assassinato na catedral” (Time, 24 de setembro de 1956). “Quando Stravinsky se levantou para sair e se abaixou para beijar o anel de Pedro, o Santo Padre deu uma simpática prova de modéstia, pedindo-lhe uma fotografia autografada”. João XXIII morreu na noite de 3 de junho de 1963; alguns meses antes, ele havia nomeado o compositor, como afirma o diploma, INGUARUM Stravinsky Equitem Commendatorem Ordinis Sancti Sylverstri Papæ, Commendatore dell’Ordine di San Silvestro Papa (R. Craft, ibidem).

Em 18 de agosto de 1963, o arcebispo Edwin V. Byrne (1891-1963), de Santa Fé, capital do Novo México (EUA), em sua catedral de São Francisco de Assis deu a Stravinsky, de 81 anos, o diploma com a insígnia da Ordem da Cavalaria; em seguida, o mestre dirigiu sua própria Missa, dedicando-a “à memória de seu augusto amigo de Abençoada Memória” (R. Craft, ibidem).

Paulo VI, às 18h00 do dia 12 de junho de 1965, assiste no Auditório Pio, próximo ao Vaticano, a um concerto sinfônico de música religiosa contemporânea, que lhe ofereceu a Rádio e Televisão Italiana (RAI). No programa, constava Two Solemn Melodies, op. 77, para violino e orquestra do finlandês Jean Sibelius (1865-1957); São Francisco de Assis, mistério para solos, coro e orquestra do veneziano Gian Francesco Malipiero (1882-1973); Salmo 129, para barítono e orquestra do francês Darius Milhaud e a Sinfonia dos salmos do nosso compositor. Foi a última estada de Stravinsky em Roma e ele se sentou ao lado do Papa, ouvindo a obra-prima de seu período neoclássico. “Um momento de tensão ocorre após os Salmos, quando Stravinsky tenta se ajoelhar e beijar o anel do Pescador, mas escorrega e perde momentaneamente o equilíbrio” (cfr. R. Craft, Stravinsky: Chronicle of a Friendship, Vanderbilt University Press, 1994, p. 423)

Certamente a Sinfonia dos Salmos se destaca nas onze obras de música sacra do músico russo. O verdadeiro impulso espiritual que move esta partitura nos é revelado já nas primeiras palavras com que o autor a dedica à Orquestra Sinfônica de Boston, por ocasião do quinquagésimo aniversário de sua fundação: “Cette Symphonie composée à la gloire de Dieu … “(Esta sinfonia composta para a glória de Deus …).

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