O filme Lourdes (2009), da diretora austríaca Jessica Hausner, parece uma típica manifestação do pensamento gnóstico — Deus pode até existir, mas não é justo —, expresso no milagre alcançado pela paralítica Christine, que sofre de esclerose múltipla e vê o mundo pelo ângulo desconfortabilíssimo de uma cadeira de rodas.

Christine, apesar do nome, óbvio demais em sua ironia, é uma cristã sem fé. Até a maneira como ela aparece na cidade de Lourdes é gnóstico-existencialista: jogada ali como coisa (a “derrelição” a que se referia o filósofo Martin Heidegger, também ele um gnóstico, em sua obra Ser e tempo), não se sabe como, sem parentes ou amigos, cuidada por uma enfermeira egoísta e leviana. Só depois, com a ajuda da internet, ficamos sabendo que os peregrinos ali estão sob os cuidados da Ordem de Malta, que todo ano organiza em Lourdes um “tour” de doentes (que, sem exceção, parecem emprestados de algum filme de Ingmar Bergman).

“Há pouca, pouquíssima luz em todo o filme, cuja clave cromática é o chumbo: nuvens negras no céu até nas raras cenas exteriores”, viu bem Vittorio Messori, no lúcido comentário ao filme publicado pelo Corriere dela sera (12 de fevereiro de 2010). No ambiente da história, oprimido pela falta de luz, vida mesmo, segundo Messori, só havia na troca de olhares entre as moças de véu e os rapazes de quepe, voluntários da Ordem de Malta, e que parece encerrar a verdadeira mensagem da obra: a única saída, para o beco sem saída desta vida, é o carpe diem.

Sem fé, Christine recebe a graça sobrenatural, ao contrário de outra jovem, também “cadeirante”, que com ela compõe o par de contrastes do filme, acompanhada da mãe que muito reza e parece muito crer. Parece ser este o objetivo do filme: mostrar o irracionalismo do demiurgo brincalhão, e não o mistério insondável de Deus.

Nesse aspecto, é um filme claramente contra Lourdes, mas, paradoxalmente, acerta justo onde procura ser mais cruel: na sátira à nova Igreja e ao turismo religioso. O padre do hotel é um idiota oportunista que joga cartas com o segurança e exprime-se por chavões mal decorados no seminário. Os padres que, a certa altura, celebram o culto do Santíssimo Sacramento, parecem um bando de trapalhões esforçando-se, por ordem da diretora Jessica, para não exagerar no pastelão. O único personagem decente da fita é uma velha estúpida da boca torta, que, certamente, era por isso que ali estava: endireitar a boca.

Vittorio Messori, no citado artigo, espanta-se que esse mesmo filme tenha recebido o Premio Brian, da União dos Ateus e Agnósticos Racionalistas (para quem a obra da sra. Hausner poderá contribuir para abalar a fé de muita gente, oferecendo uma visão desencantada e cética aos que ainda não a conseguiram ter), e o Prêmio Signis, concedido por católicos de uma associação internacional reconhecida oficialmente pela Santa Sé, além da atitude receptiva da Arquidiocese de Milão, apadrinhando-o e difundindo-o em suas paróquias.

A Radio Vaticano também não vê maldade nenhuma no filme (http://www.radiovaticana.org/it1/Articolo.asp?c=357033). Exprimindo justamente o ponto de vista daquela Igreja que é ridicularizada na obra, não enxerga as intenções ideológicas e anticatólicas do trabalho da cineasta austríaca. Para esse órgão de comunicação da Santa Sé, o filme é “austero e intenso, não quer tomar posição e muito menos criticar ou zombar, mas que, em sua essencial e lúcida equidistância, produz um debate salutar, várias reflexões sobre o milagre e as reações que despertam no coração das pessoas”.

A revista Família cristã, versão italiana, participa do coro e elogia (http://www.stpauls.it/fc/1007fc/1007fc74.htm). É um filme controvertido, mas respeitoso, diz a matéria do periódico católico, que não se incomodou nem um pouco com a Igreja ter sido ali representada por um bando de tolos que repetem mecanicamente o jargão ritualístico. E transcreve trechos de uma entrevista da diretora, dos quais o seguinte me parece bastante revelador: “Depois da minha primeira peregrinação a Lourdes, vendo o sofrimento dos fiéis, ficava deprimida e queria abandonar o projeto. Mudei de ideia quando tive contato com os voluntários da Ordem de Malta, atingida por sua estrutura tão militaresca. Aquelas figuras me permitiram ampliar a história, acrescentando uma pitada de ironia.” Os milagres e os doentes, ilustrações estereotipadas dos pecados capitais, já contavam menos do que a reprovável estrutura militaresca de “uma única” associação filantrópica, representante da vil repressão burguesa, e que, pela maneira como é mostrada no filme, parece resumir metonimicamente “toda” a Lourdes.

Vittorio Messori menciona uma conversa, bastante ilustrativa, que teve com o escritor e ateu Umberto Eco, que se dizia desiludido quando via semelhantes premiações católicas (uma deles da Universidade Loyola, a escola dos jesuítas americanos) serem dadas ao filme baseado em seu romance O nome da rosa: “Esforcei-me para fazer um livro radicalmente agnóstico, senão ateu, esperando suscitar um debate vivo. Ao contrário, esses padres me decepcionam, aclamando-me e enchendo-me de prêmios. Chego a ter saudades dos belos e velhos tempos da Santa Inquisição. Aqueles ásperos dominicanos eram menos aborrecidos do que os frades e sacristães ‘maduros’ de hoje, que aplaudem com entusiasmo o escritor descrente”.