Antes eu não sabia o que fazer dos mortos.
Nos cemitérios, ficava tão mudo quanto os túmulos à minha volta.

Agora os túmulos têm cor,
Têm voz,
Tem vida própria.
Até as mais desprezíveis flores de plástico
Das covas mais abandonadas
Adquiriram uma graça insuspeita.

E embora as almas dos mortos
Estejam só um pouco adiante de nós,
Deslocadas um milímetro para longe dos despojos que ficaram,
As almas um dia se reencontrarão amorosamente com o pó
Na inimaginável festa da ressurreição dos mortos.

(Minha fantasia de Céu não o situa no alto,
Num vértice infinitamente distante da base,
Mas logo-ali, quase ao nosso lado,
Defendido por uma poderosa película sobrenatural).

O cemitério seria a nossa estação de embarque para a cidade definitiva
Se a alma já não tivesse partido algumas horas antes.