Vi trechos de uma entrevista com um ex-jogador de futebol, ainda jovem, bombado, como se diz na gíria de hoje, com as indefectíveis tatuagens que hoje caracteriza a categoria. O repórter perguntava se, com a fama que tinha, havia “pego” muitas mulheres. Diante do constrangimento e do silêncio do jogador, que apenas sorria malicioso, o jornalista não lhe dava tréguas e pressionava, até que o rapaz não teve outra saída senão responder:

— Peguei, cara. Peguei muitas.

— Todas? — insistiu o outro.

— Todas… — admitiu com uma jactância marota e bem disfarçada, como se tivesse sido objeto de coerção psicológica, tornando público, contra a vontade, o que gostaria de deixar discretamente guardado em sua memória e na daquelas que ele “pegou”.

A verdade era bem outra. O sorriso, a postura, a entonação com que o atleta respondia — tudo isto falava mais claro do que uma e outra palavra de falso pudor e embaraço. Estava ali alguém que era a perfeita encarnação da vaidade, para o deleite dos ex-torcedores e das futuras mulheres que ele ainda “pegaria” (e, por que não?, para a inveja de muitos que por ele não torciam, não possuem a sua fama, o seu dinheiro, a sua juventude).  

Se vista de perto, parecia uma conversa alegre e despojada com o jornalista. Olhada, porém, de mais longe, com o distanciamento da fé, era inevitável perceber uma nuvem de melancolia envolvendo a dupla. Nada é mais melancólico do que a sobreposição do natural ao sobrenatural, do corpo ao espírito, das coisas passageiras às permanentes.

Aquele rapaz era o resultado do que podem fazer o talento, a fama e o dinheiro no mundo de hoje. Quando ele cairia “na real” e passaria a ver a vida como ela de fato é — fumaça, sombra, nada? Quando “desceria do céu uma luz que iluminaria o outro lado de suas vaidades”, frase dura com que o escritor Marques Rebelo termina o seu romance A estrela sobe?

Uma das curas para essa triste doença — a vitalidade mal gerenciada — é certamente a velhice, que todos veem como uma grande desgraça, o fim de todos os sonhos, a queda de todas as torres, mas que, no fundo, pensando bem, é o mais santo dos remédios, o verdadeiro espelho de Narciso.

Alguém já chamou a velhice de a pior de todas as doenças. Se for verdade, não é menos certo que ela também traz, em seu bojo, o mais eficaz de todos os remédios. Amargo, sim, mas santo e eficaz remédio. Quem sabe seja ela a candeia que traz a luz a que se referia o escritor mencionado: um último esforço da graça divina para acordar os que vivemos na pétrea sonolência do prazer ou da fama. Talvez jamais despertássemos, não fossem as pequenas humilhações do envelhecimento. Haverá coisa mais triste do que uma grande tatuagem em pele encarquilhada de velho?

Só a velhice, a doença ou uma inesperada conversão têm o poder de dobrar os joelhos da vanglória.