O diretor italiano Antonioni é um nome importante do cinema italiano do século XX, de fama mundial. Contribuiu para a superação do neorrealismo e surgimento de um cinema marcado pelo pensamento existencialista.

Em 1969, em entrevista a um crítico de cinema americano, Charles Thomas Samuels, disse que “O ser humano está sobrecarregado por sentimentos totalmente inadequados às suas necessidades. (…) estamos sobrecarregados com uma cultura que não avançou tanto quanto a ciência. O homem científico já está na lua, mas ainda vivemos com os conceitos morais de Homero. Daí esse transtorno, esse desequilíbrio que deixa os mais fracos ansiosos e apreensivos, que tanto dificulta a adaptação ao mecanismo da vida moderna”.

Perguntado se a velha bagagem moral devia ser jogada fora e se o ser humano devia conceber uma nova moralidade, indignou-se com essa última palavra: “Por que continuar usando essa palavra que detesto? Vivemos em uma sociedade que nos obriga a continuar usando esses conceitos, e não sabemos mais o que eles significam. No futuro — não em breve, talvez no século vinte e cinco — esses conceitos terão perdido sua relevância. Não consigo entender como fomos capazes de seguir esses rastros desgastados, que foram criados pelo pânico diante da natureza. Quando o homem se reconciliar com a natureza, quando o espaço físico se tornar seu verdadeiro pano de fundo, essas palavras e conceitos terão perdido o significado e não teremos mais que usá-los.”

O jornalista lembra o final do filme de Antonioni L’avventura, em que o personagem Sandro reconhece que sua promiscuidade é prejudicial a Cláudia, com quem ele teve provavelmente a única relação intensa de sua vida. E pergunta ao diretor se a culpa que ele sente (levando-o às lágrimas) é um erro, porque o que o faz sentir essa culpa são as concepções ultrapassadas de amor e a ideia de responsabilidade pessoal, que se tornaram fardos irrelevantes.

Responde Antonioni que “Sandro é um personagem de um filme rodado em 1960 e, portanto, está totalmente imerso em tais problemas morais. Ele é italiano, católico e, portanto, vítima dessa moralidade. O que eu disse há pouco é que esses dilemas morais não terão o direito de existir em um futuro diferente do presente. Hoje começamos a vislumbrar esse futuro, mas em 1960 vivíamos em um país com o Papa e o Vaticano, que sempre foram extremamente importantes para todos nós. Ainda não há uma escola na Itália, nem um tribunal sem seu crucifixo. Temos Cristo em nossas casas e, portanto, o problema de consciência, um problema alimentado por nós quando crianças, do qual depois temos problemas para nos livrar. Todos os personagens dos meus filmes estão lutando contra esses problemas, precisando de liberdade, tentando encontrar uma maneira de se libertar, mas falhando em se livrar da consciência, do senso de pecado, de todo esse monte de truques.”

O entrevistador, Charles Thomas Samuels, discorda do entrevistado: “Não acho que o que você está propondo seja apenas uma questão de tempo. Seria realmente bom dispensar esse monte de truques, como você o chama? Eu me pergunto se não deveríamos nos orgulhar mais dessa tradição que remonta a Homero do que da viagem à lua. Falando apenas por mim — não, tenho certeza de que falo pelos outros também — o final de L’avventura é tão poderoso porque Sandro tem a consciência de se arrepender do que fez. Para sentir tanto pesar, é preciso acreditar na suprema importância da responsabilidade humana, e não consigo conceber a arte sem essa crença.”

Perguntado, certa vez, se acreditava em Deus, teria respondido Antonioni: “Algumas vezes, à noite.” Os ateus não conseguem se desembaraçar completamente de Deus… E se Deus existe pelo menos “algumas vezes, à noite”, nem tudo é permitido nesta vida. Nem que seja por um breve período de tempo — “algumas vezes”… “à noite”…

INTERVIEW WITH MICHELANGELO ANTONIONI (1969) – by Charles Thomas Samuels