Há alguns anos, quatro compositores holandeses de música de concerto, Roel Van Oosten, Merlijn Twaalfhoven, Ernst Reijseger e Imre Ploeg, compuseram uma peça vocal chamada Visões de 2068,sobre texto da jovem escritora, também holandesa, Wytske Versteeg.

Nós, que não entendemos holandês, podemos ouvir até com certo deleite, como se fosse uma peça puramente vocalizada, como se não contivessem palavras que significassem isto ou aquilo. Mas a recepção do público holandês é diferente: ele enxergará imediatamente o que dizem as palavras. E não são palavras inocentes.

O trabalho desses compositores holandeses, em parceria com a escritora Wytske Versteeg, é um bom exemplo de certa estética green, bastante rentável hoje em dia, e que há décadas anda a serviço da ideologia ambientalista, que prevê um futuro catastrófico para a humanidade, se os países do mundo não puserem em prática as medidas de economia sustentável apregoadas pela ONU e a elite globalista (composta de “filantropos” como Bill Gates e Georges Soros), que têm sequestrado parte considerável, senão a maior parte, do mundo científico e cultural.

Essa estética green faz sucesso no cinema, na música pop, na literatura, nas artes plásticas e, por que não?, até na música de concerto. A peça Visões de 2068, tão catastrofista quanto a ideologia que defende, foi composta em 2018 e estreou em 2019 com o coral camerístico VU, também holandês. O propósito é “imaginar” como seria o mundo daqui a 50 anos, despertando a consciência do público para o futuro distópico que esperaria a humanidade nas próximas décadas, se as mudanças climáticas não forem contidas pela redução de CO2 na atmosfera.

Mesmo reconhecendo ser difícil imaginar algo tão intangível como a mudança climática, um dos objetivos do trabalho é encorajar o ouvinte a pensar sobre o aquecimento global, que cresceria cada vez mais, e o aumento do nível do mar. O público é animado a imaginar até a água quente que, em breve, estaria chegando ao nível de nossos lábios, como num filme de terror… Os textos da obra vocal sugeririam um futuro sombrio, cheio de doenças incontroláveis, provocadas por vírus mortais que inevitavelmente tomariam conta do mundo (pense-se que a peça foi escrita antes da Covid).

Mas, como toda obra ideologicamente engajada, é otimista e sonha com um “ponto de inflexão”, a oportunidade de reviravolta utópica. Um dos textos da peça afirma que, no mundo, não há só coisas passageiras, mas também permanentes, que existirão para sempre, como o amor e a humanidade.

É aqui que tal ideologia revela o seu aspecto mais frágil: a crença na perenidade imanente deste mundo. Do ponto de vista cristão e transcendente, isto não passa de mais uma ilusão demoníaca. Para os cristãos, a principal catástrofe é pessoal, antes de ser social: é a possibilidade da alma perder-se após a morte.

Todo zelo com as coisas deste mundo deve vir imediatamente após o cuidado espiritual e a luta contra os pecados. Se estes fossem contidos numa boa escala, em especial o pecado da avareza, por si só o meio ambiente estaria menos sujeito à degradação. A luta deve ser travada, antes de tudo, no coração de cada pessoa; jamais contra uma única espécie de falta moral, mas contra o conjunto dos vícios. Não há virtude isolada e sozinha. As virtudes caminham em grupo.

Em nenhum momento nos textos dessa peça vocal se ouve a palavra Deus, como se o ser humano que só confiasse no poder nas próprias mãos. O mal e o bem seriam produtos unicamente humanos.

Depois do ser humano perder a fé em Deus e na vida eterna, começa a criar sentidos puramente terrenos e imanentes para a própria vida. Antes era o socialismo, a luta de classes, a construção da sociedade perfeita sem exploradores e explorados… Agora é o meio ambiente, que deve retornar ao estado paradisíaco pré-revolução industrial, através de uma revolução panteística à Rousseau, em que o horizonte último continuasse a ser o deste mundo. O meio ambiente é algo que deve ser bem cuidado. Mas não há consenso científico em torno da hipótese apocalíptica e catastrofista de um mundo no qual o ar, a água e a terra — três dos quatro elementos —, estarão em breve irremediavelmente comprometidos pelo fogo satânico disfarçado de dióxido de carbono. É triste ver como os recursos artísticos, dominados por esses compositores, são postos a serviço de algo tão volátil.