Quando Carlos Drummond de Andrade (1902-198) tinha dezessete anos, não aceitou o regime interno de obediência da escola de jesuítas em que estudava (Colégio Anchieta, de Nova Friburgo) e foi expulso. Já era a influência do anarquismo e das ideias socialistas que começavam a dominar os meios intelectuais brasileiros, no início do século XX.

Logo se formaria em farmácia, mas não exerceria, preferindo o serviço público e o jornalismo. Já estava casado, aos vinte e três anos, quando aderiu ao movimento modernista, tornando-se um de seus principais expoentes em Minas Gerais.

Era a época das contestações antiburguesas do modernismo, com sua recusa de tudo o que cheirasse a passado. Duas características do movimento marcariam os primeiros livros do poeta mineiro: tendência piadista e revolução formal. Drummond, de certa forma, conseguir sintetizar as principais vertentes estéticas do período: tanto as tendências nos anos 30 para o sociologismo e a introspecção, como o neo-formalismo dos anos 40, com o retorno de recursos tradicionais de expressão poética.

Os dois primeiros livros que publicou, ainda nos anos 30 (Alguma poesia e Brejo das almas), balizados entre humor corrosivo e pessimismo, refletiam claramente a perda da fé religiosa. Dos anos 30 para os 40 (quando publica Sentimento do mundo e José), o poeta incorpora a presença de aspectos existencialistas, então em voga, como a angústia, o tédio, a falta de sentido da vida.

É dessa fase seus versos mais célebres: “Itabira é só uma fotografia na parede, mas como dói”, “Havia uma pedra no meio do caminho”, “Minas não há mais”, “Mundo mundo vasto mundo”, “Perdi o bonde e a esperança”, “E agora, José?”, “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”, “Eta vida besta, meu Deus!”, “A poesia é incomunicável. Fique torto no seu canto.Não ame”, “Chegou um tempo em que não adianta morrer”, “Lutar com palavras é a luta mais vã”, “Minha mão está suja. Preciso cortá-la”, “Este é tempo de partido, tempo de homens partidos”.

Concordado com idéia voltaireana de que “Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo”, em1945 o poeta procura reinventar Deus no socialismo e experimenta breve engajamento comunista, de que resultaram os poemas do livro A rosa do povo.  Desiludiu-se, porém, com as idéias de Marx, e com todas as modalidades de fé: a fé em Deus, a fé no socialismo, a fé na ciência (o poema “Desaparecimento de Luiza Porto”, em que contrapõe a dor individual à sorte coletiva dos povos, é emblemático da nova tendência).

Sua poesia apresenta uma grande variedade de temas e motivos: reflexões sobre a arte da poesia, homenagem a amigos, viagens memorialísticas à Minas de sua infância. O núcleo principal de sua obra parece ser, porém, os poemas sobre a condição humana: o medo; a solidão; a culpa; a incomunicabilidade (a falta de trânsito e comunicação entre as almas); o envelhecimento; a morte; o sentimento de abandono metafísico, de orfandade divina; e (sobretudo nos últimos anos) o amor erótico como uma grande droga existencial.