Há mais ou menos duas décadas, desde os anos noventa do século XX, começou a circular entre nós a expressão “politicamente correto”, que surgiu e se disseminou nos Estados Unidos a partir dos anos oitenta. Pressupõe a existência de uma forma “verdadeira” de fazer as coisas, do ponto de vista político, ditada pelo pensamento marxista em suas mais recentes formulações.

O politicamente correto é, antes de tudo, uma produção acadêmico-linguística. Seus principais agentes são agora os “produtores de discurso” egressos da universidade — professores, jornalistas, publicitários, padres, compositores populares, secretários ou ministros da educação, intelectuais em suma, devidamente treinados na universidade, que é seu principal quartel-general.

A expressão designava, antes de tudo, um certo padrão de comportamento linguístico e social, um novo discurso e um novo jeito de proceder que deveriam substituir os padrões mais conservadores, supostamente responsáveis pelas desigualdades econômicas e sociais. É, no fundo, mais uma reciclagem do socialismo em que o fazer e o dizer se mesclam indissoluvelmente, a partir da convicção de que linguagem produz realidade, e, portanto, é preciso exercer um controle  mais estrito sobre palavras e ações que sirvam de obstáculo ao projeto da nova esquerda, que antes de mudar a infraestrutura político-econômica, parte da realidade superestrutural: a cultura de um grupo e suas formas de pensamento. Donde a atuação sobre amplas faixas da população, como as mulheres (feminismo), os jovens (sexo livre) e até as crianças (ideologia de gênero nas escolas), e até a defesa de certos grupos sociais minoritários (sobretudo étnicos e sexuais), quando são interessantes para alimentar conflitos.

Enfim, quando se pensava que a história havia chegado ao fim (Francis Fukuyama) e o mundo estava livre do socialismo, com a queda do Muro de Berlim e o aparente desmonte do regime soviético, a ideologia do  “politicamente correto” começava a ganhar força no mundo ocidental, candidatando-se a ocupar o vazio deixado pelo velho comunismo soviético que, embora criador de sofisticadas técnicas de desinformação e maquiagem da realidade, ainda estava associado a certas práticas assustadoras do ponto de vista ocidental.

Era uma verdadeira revolução cultural, atuando sobre a linguagem e as ideias. A revolução linguístico-cultural é mais uma estratégia revolucionária, dentro da própria revolução. Não se restringe a mudanças econômicas e sociais epidérmicas; quer algo mais existencial e permanente, fazendo a transfusão coletiva dos novos valores através de uma engenharia social bem mais sofisticada. O foco, agora, é a linguagem, para mais profundamente penetrar no coração da pessoa humana. É uma revolução principalmente semiótica, fundada na substituição de antigos signos por outros, numa completa erradicação das velhas palavras da tribo ocidental.