Não há quem não se diga, hoje, a favor da dignidade da pessoa humana, e nunca, como hoje, assistimos a um ataque sistemático à natureza do homem. Por trás de uma unanimidade de consenso quanto à expressão verbal “dignidade da pessoa”, há uma contradição radical entre o conceito clássico-cristão de pessoa e o moderno-contemporâneo, entre a dignidade da pessoa humana compreendida pela Doutrina Católica e a dignidade da pessoa humana entendida pelo personalismo contemporâneo.

Os ordenamentos humanitários internacionais, e os ordenamentos constitucionais de quase todos os Estados ocidentais, movem-se num contexto personalista: esses mesmos ordenamentos professam a máxima proteção da dignidade da pessoa humana, enquanto determinam a afirmação legal (como se direitos fossem) do aborto, a eutanásia, o suicídio assistido, a “retificação” cirúrgica de sexo, o uso pessoal de drogas etc.

Como tudo isso é possível? A Igreja sempre defendeu a dignidade (ontológica e moral) da pessoa humana. Aparentemente, o personalismo contemporâneo teria feito o mesmo, em perfeita continuidade com os dois mil anos cristãos. Então, como é possível que o resultado seja a afirmação destes “novos direitos” (aborto, eutanásia, transexualismo, liberação das drogas etc.)?

A Igreja sempre se referiu à “pessoa”, e a ONU (ou a República Italiana) também tem falado em “pessoa”; a Igreja sempre se referiu à “dignidade da pessoa”, e a ONU (ou a República Italiana) também tem falado em “dignidade da pessoa”. Contudo, são conceitos radicalmente diferentes, tanto num como noutro caso.

Quando a Igreja fala da pessoa humana, quer referir-se ao homem entendido como criado por Deus à sua imagem, espiritual, racional e livre, dotado de uma alma imortal. A dignidade da pessoa humana, no pensamento católico, repousa na natureza do homem (dignidade ontológica) e adquire dignidade moral quando a conduta humana se conforma ao bem, com a lei moral natural racionalmente conhecida.

Quando as instituições internacionais, e muitos ordenamentos ocidentais, afirmam a “dignidade da pessoa humana”, referem-se à pretensão de uma autodeterminação subjetiva. Portanto, não há mais referência a uma natureza (a natureza humana), ao ser espiritual-racional-livre do homem, a uma ordem objetiva de justiça; a único ponto de referência é a pretensão de uma autodeterminação absoluta de si mesmo.

Por trás das mesmas palavras estão, portanto, duas visões irreconciliáveis do homem, de sua dignidade, da finalidade da política e do direito: a clássica-cristã e a personalista contemporânea.

Muitas vezes, atualmente, até mesmo os homens da Igreja e os chamados políticos católicos acabam por adotar e propagar a visão personalista da pessoa humana, em vez da autenticamente católica.

Para esclarecer o assunto, a única saída é o retorno a São Tomás de Aquino e à doutrina social da Igreja.