O único comunismo possível, neste mundo, talvez seja o descrito pelo escritor Manzoni, no célebre capítulo de Os noivos (I promessi sposi) dedicado à terrível peste de Milão.

A doença, cujo contágio não favorecia essa ou aquela classe social, tinha o poder de nivelar tudo por baixo. Nobres e plebeus, padres e leigos, homens e mulheres: todos pertenciam ao mesmo proletariado da infecção e do medo. Todos eram iguais diante da morte.

Ao contrário, porém, do que ocorria no comunismo da URSS, China ou Cuba, a peste do romance de Manzoni oferecia ricas possibilidades de transcendência pessoal aos envolvidos, fossem contagiados ou não.

É o caso do episódio, talvez o mais comoventes dessa obra-prima da literatura italiana, em que o pobre Renzo descobriu que seu malfeitor, o nobre D. Rodrigo, tinha sido contaminado e — doente como qualquer outro doente — estava no lazareto, prédio em que se mantinham as pessoas contagiadas.

Renzo seguiu para lá, decidido a vingar-se do nobre, que tinha raptado sua noiva e transformara sua vida num inferno.

Não esperava, porém, encontrar por lá Frei Cristóvão, que o dissuadiu do intento numa fala impregnada de sabedoria cristã, deixando completamente sem sentido a vingança. O que adiantava bater em cachorro morto? Queria, acaso, tomar o lugar de Deus?

Renzo, envergonhado, compreendeu que a justiça já estava feita.