O fantasma do Grand Reset está vagando por aí: não é uma conspiração, é um projeto conhecido, relacionado ao Fórum de Davos sobre economia (e outras coisas mais). A economista Ilaria Bifarini, em seu ensaio sobre o assunto (Il Grande Reset: dalla pandemia alla nuova normalità, Phasar Edizioni, 2020), explica que, para valorizar-se de fato a ciência, na passagem da pandemia ao novo normal, será necessário combater o cientificismo  (quase um novo Messias) e a China como modelo para imitar-se, especialmente a sua ditadura sanitária. De acordo com Klaus Schwab e Thierry Malleret — autores de um livro sobre o Grande Reset — seremos salvos pelo lucro capitalista, e não poderemos mais dividir a história em antes e depois de Cristo, mas “antes da Covid” e “depois da Covid”.

Estamos diante de uma “nova ordem mundial” e a caminho de um “novo humanismo”? Não, fiquemos tranquilos. Isso é tão antigo quanto o relógio de cuco e está destinado a permanecer inacabado, como a Torre de Babel. Por quê? A resposta é breve: ele excluiu uma “variável independente”, que é o Deus Todo-Poderoso. Além disto, há uma incógnita permanente: o homem. O que pode ele pensar? O que vai fazer? O ser humano dificilmente é previsível.

Ouçamos Santo Agostinho: “O amor de si, que conduz ao desprezo por Deus, gera a cidade terrena; o amor de Deus, que conduz ao desprezo de si mesmo, gera a cidade celeste. Aquela aspira à glória dos homens, e esta coloca a glória de Deus acima de tudo […] Os cidadãos da cidade terrena são dominados por uma ganância tola de domínio que os induz a subjugar os outros; os cidadãos da cidade celeste se oferecem uns aos outros em serviço e com espírito de caridade ”(A cidade de Deus, XIV, 28).

Estamos na enésima “nova desordem mundial”. Para o cristão, que dá crédito à Revelação bíblica, assim como para o laico que ama a razão, o Grande Reset está, como a Torre de Babel, destinado a permanecer inacabado. Ou cair como a estátua da visão de Daniel: um seixo se desprende da montanha e golpeia os seus  pés de barro, apesar de todo o resto ser feito de ouro, prata, ferro e cobre: e a faz desabar no chão.

Portanto, o católico não deve se deixar impressionar pelo cenário deste mundo que passa, mas seguir a Revelação, ao advertir que o confronto entre Cristo e o Maligno durará até o fim dos tempos. Mas Cristo sempre vence, mesmo quando os seus são perseguidos, e derrotará seus inimigos, não permitindo que eles concluam o seu projeto, pois possuem um ‘defeito de fabricação’: ignoram Deus. De fato, o Salmo 127 afirma: “Se o Senhor não edifica a cidade, os construtores trabalham em vão”. E o Salmo 117 nos lembra que, ao descartar a pedra angular — que é Jesus Cristo — o edifício não se levanta e espatifará no chão. Portanto, com base nisto, nenhuma “nova ordem mundial” e nenhuma ‘fraternidade universal’ se cumprirão, se excluir o Cristo. De modo que o cristão deve viver na verdadeira paz.

Para entender que o Grand Reset não é fundamentalmente novo, recomendamos o filme O Último dos Moicanos; e, depois, ouçam-se os discursos de Merkel, Putin e Xi Jinping em Davos 2021: se entenderá que esse dia nunca vai acontecer. Os católicos autênticos e os laicos racionais não precisam se preocupar além da medida, porque desde o início da história houve oposição entre Deus e o mundo; foi por isso que Cristo advertiu seus seguidores, dizendo: “Vocês também serão perseguidos”. Os cristãos nunca devem se esquecer que estão vinculados ao destino de Cristo. Eles não são chamados para vencer, mas para resistir. A Igreja tem essa oposição em seu DNA, apesar de alguns de seus homens tenham buscado amenizá-la desde o pós-concílio.

O que fazer, então? Assim escreve John Henry Newman, em Os Arianos do século IV: “Os Cristãos não cumprem o seu dever […] quando se dividem em muitos partidos […] Não fazem mais do que o próprio dever quando se associam uns com os outros, sobretudo quando esta coesão interna é usada para combater externamente o espírito do mal, nas cortes dos reis ou entre as multidões. E se não podem fazer mais, podem, pelo menos, sofrer pela verdade e manter a memória desperta, infligindo aos demais homens a tarefa de persegui-los”.

Certamente, o martírio é o último recurso dos cristãos. É preciso que sejam como cordeiros no meio de lobos, simples como pombas e astutos como serpentes, ser o sal e a luz do mundo. E quando são chamados a comprometer-se em relação ao mundo — que tem na participação política uma de suas expressões máximas — eles devem se lembrar do que ensinaram João Paulo II, Bento XVI e o cardeal Ruini: se pretendem atuar com alguma relevância, a sua formação católica deve estar fundada na doutrina da Igreja e devem colaborar com os laicos que, embora não católicos, amem a razão e queiram viver como se Deus existisse. É necessário agir segundo o critério do Apóstolo: peneirar tudo e reter o que for valioso (cf. 1 Ts 5, 21). Nesse sentido, a Fundação Magna Carta permanece como um modelo de referência. Juntos, reencontraremos o desejo de lutar para restaurar a “cidade” em sua humanidade e sociabilidade, que tem o próprio Deus como seu construtor (Hb 11,10).

Enquanto a economia é transformada numa espécie de neodivindade (quando é apenas um mero instrumento, como muitas vezes adverte Ettore Gotti Tedeschi), a Igreja deve voltar a proclamar a “Economia da salvação”, se ainda estiver convencida de que só a conversão, pedida por Cristo, dá origem à verdadeira vida, sempre na esteira do Evangelho. É necessário retomar a evangelização, nela concentrando os todos os recursos espirituais, intelectuais e apostólicos de bispos, sacerdotes e leigos. Não se deve perder mais tempo.

O que podemos esperar, então, após esse “pandemônio” do vírus? O Grande Reset? Não devemos ter expectativas meramente “políticas”, isto é, de libertação do mundo, mas trabalhar e esperar todos os dias pela salvação e redenção que vêm de Cristo. Após a queda do homem, houve “a encarnação do Verbo, conditio sine qua non para a salvação do mundo e de todo o universo” (Dostoiévski). Assim, tudo o que acontece no mundo é a Providência conduzindo à recapitulação de tudo em Cristo (cf. Ef 1, 10), que é o único e verdadeiro Grande Reset da história e do cosmos.