Professor de Filosofia, ex-Ministro da Educação, o polonês Ryszard legutko é deputado europeu e presidente do grupo de conservadores e reformistas europeus. Seu livro O Diabo na Democracia, Tentações Totalitárias no Coração das Sociedades Livres, obteve grande sucesso e foi traduzido para várias línguas.

O autor, que viveu parte de sua vida na Polônia comunista, ficou espantado, após a queda do Muro de Berlim e o colapso da URSS, ao ver os ex-comunistas se adaptarem muito melhor do que os antigos dissidentes soviéticos à democracia liberal e ao mundo dos negócios. Ele procurou compreender as razões dessa surpreendente compatibilidade. Ao estudar em detalhes as recentes transformações da democracia liberal, ele descobriu que ela de fato compartilha muitos traços perturbadores com o comunismo: o culto do “progresso”, o “sentido da história”, o desejo de transformar a sociedade lutando contra os adversários “da emancipação e da igualdade”, a submissão do sufrágio popular a órgãos não eleitos e a incapacidade de tolerar qualquer opinião contrária…

A conexão que ele faz entre a ideologia marxista e a ideologia liberal surpreenderá apenas aqueles que ignoram que esses dois sistemas provêm da mesma modernidade: modernidade que recusa, por princípio,  a transcendência e coloca sua esperança no materialismo. No prefácio do livro, John O’Sullivan, editor da National Review, aponta as semelhanças entre o comunismo e a democracia liberal:

“Ambos os sistemas surgiram sob os moldes da utopia e aspiram a chegar a um ‘fim da história’, que levaria suas construções inevitavelmente a um estado de paralisia permanente. Ambos os regimes adotam uma abordagem historicista e insistem que a história inevitavelmente se move em sua direção. Ambos, portanto, exigem que as instituições sociais em seu conjunto — a família, as igrejas, os agentes privados — se adequem às regras de seu funcionamento interno. E quando a realidade diverge das expectativas, ambos usam a engenharia social para conduzir a transformação a seu bom termo.”

É o próprio autor quem enfatiza:

“O comunismo e a democracia liberal, portanto, compreendem a si mesmos como exclusivos, sem alternativas. A menor mudança não significaria uma deterioração menor, mas um desastre. O comunista diria: se o comunismo for rejeitado ou obstruído, a sociedade continuará a ser submetida à exploração de classe, ao capitalismo, ao imperialismo e ao fascismo. Os democratas liberais diriam: se a democracia liberal não for aceita, a sociedade sucumbirá ao autoritarismo, ao fascismo e à teocracia. Em ambos os casos, a busca por uma solução alternativa é, na melhor das hipóteses, privada de sentido e nem merece ser considerada; e, na pior das hipóteses, um jogo profundamente irresponsável e imprudente.”

Do ponto de vista da História, parece que a cumplicidade entre o sistema liberal e o comunismo é inequívoca:

“No século XX, os liberais flertaram com o socialismo por muito tempo, inclusive em sua versão soviética, sem dúvida devido a aspectos comuns. Mesmo os mais liberais dos liberais eram muito compreensivos em relação à URSS e ao comunismo soviético, às vezes até defendendo a ideia do desarmamento unilateral do Ocidente — como faziam os libertarianos — em nome da liberdade. Da mesma forma, os liberais demonstraram uma certa tibieza contra o terrorismo e as ditaduras de esquerda no Terceiro Mundo, enquanto muitos deles denunciavam abertamente as atividades anticomunistas de certos grupos dentro dos países do bloco soviético.”