“Quando se deixa de acreditar em Deus, passa-se a acreditar em qualquer coisa”. É uma frase de Chesterton que serve como profecia do que está acontecendo.

A nossa sociedade não é a sociedade judaica ou pagã, na qual o cristianismo primitivo surgiu e cresceu; eles acreditavam em Yahweh ou nos deuses do Olimpo, mas tinham fé.

Nem é a sociedade medieval, profundamente marcada pela fé na vida eterna, com os seus castigos e recompensas.

Não é a sociedade moderna, que sangrou até à morte por questões religiosas, quando se discutia, com lanças e canhões, se as boas obras eram ou não necessárias para a salvação.

Nem sequer é a sociedade contemporânea após a Revolução Francesa, que, finalmente, viu a religião como um instrumento necessário para dar uma certa moralidade ao povo.

Hoje vivemos numa sociedade pós-cristã, mas também pós-religiosa. Uma sociedade que, na sua maioria, abandonou a fé dos mais velhos pela mesma razão com que eles mantinham essa fé: por nenhuma razão. É uma sociedade que já não acredita em Deus, mas também não acredita no homem. É uma sociedade centrada na busca do bem-estar, porque já não acredita que haja nada depois desta vida. A questão da vida eterna — presente na Humanidade desde as suas origens — é hoje irrelevante e a contribuição da Igreja como guia moral da sociedade é rejeitada (e até com violência).

Esta não é uma análise pessimista da sociedade, porque não sou pessimista. Nem, francamente, sou um otimista. Sou simplesmente um crente que tem esperança. Como crente, sei que Deus é o Senhor da história e que falhará toda esta agitação para construir um mundo sem Ele. A esperança não só me ajuda a olhar nos olhos sem torcer a cara, mas também a ter a certeza de que esta onda de ateísmo adolescente passará.

Mas, além de ter fé e esperança, tenho um pouco de inteligência e concluo a previsão de Chesterton, que está se tornando realidade, com aquelas palavras que Jan Tyranowski, o místico alfaiate, disse ao jovem Karol Wojtyla quando este hesitava entre juntar-se à resistência armada contra os nazistas ou entrar no seminário: “O mal destrói-se a si próprio. Dedica-te a fazer o bem”.

O mal destrói-se a si próprio. O mal só sabe destruir e, primeiro, começa por destruir o bem que encontra, mas depois revolta-se contra si mesmo, e o que deixa para trás é uma paisagem em ruínas. Ruínas que o homem, que nenhum homem, pode habitar. Por exemplo: o Estado de Nova Iorque permitiu a comercialização do útero das mulheres pobres, que vão se tornar matrizes assalariadas para aqueles que as podem pagar. E, ao mesmo tempo, o aborto por decapitação é permitido (o nascimento é interrompido num só instante, assim que a cabeça da criança tenha emergido, e uma agulha é introduzida no cerebelo, causando a sua morte, fazendo o mesmo que se faz ao gado no matadouro).

Juntando as duas coisas, quanto tempo demorará para que os seres humanos, engendrados nestes ventres de aluguel, sejam sacrificados logo no nascimento e os seus órgãos postos à venda? Se isso ainda não estiver sendo feito, o negócio das multinacionais do aborto vai aumentar consideravelmente, porque vão colocar órgãos no mercado para transplantes obtidos legalmente. Gera-se a criança, mata-se, abate-se e vende-se.

Este é o mundo sem Deus. Um mundo em que os mais fracos perderão sempre. Mas este é também um mundo que se destrói a si próprio. Como disse Eliot, estão fazendo a experiência de construir um mundo sem Deus, mas falharão. Enquanto isto, vamos proteger as nossas famílias. E proteger as nossas famílias significa fazer parte de uma família maior, a família da Igreja, que não cede à pressão do politicamente correcto e tem a coragem de continuar pregando a mensagem de Jesus Cristo na sua totalidade.