Todos os sistemas totalitários repousam sobre uma ideologia. Esta ideologia, imóvel em sua perfeição, gera um movimento que arrasta consigo tudo o que existe. Como um buraco negro, ele movimenta a realidade sugando-a. Em sua penetrante obra “O sistema totalitário”, Hannah Arendt discute a obsessão totalitária do movimento perpétuo. Esse movimento promete durar até o advento da sociedade sem classes, o império dos mil anos ou alguma outra sociedade ideal.

Isso nunca funciona. Mas, como a ideologia não pode estar errada e a perfeição não foi atingida, só pode ser porque ainda não fomos longe o suficiente… Devemos então começar de novo, de forma mais radical, começando por denunciar e condenar os responsáveis ​​pelo atraso desse espetacular processo. Faz parte do movimento. Em outras palavras, as falhas em cada etapa impõe a etapa seguinte.

O totalitarismo, portanto, caminha triunfantemente de um fracasso a outro. É movido por sua própria imperfeição, solicitando e justificando incessantemente mais aumento de poder, mais controle, mais homogeneização, mais expurgos, mais conquistas militares.

Mas é preciso também manter o entusiasmo da tropa: a etapa que se anuncia é sempre dada como a final. Estamos continuamente perto do fim, na reta final. Um último esforço, uma última mudança e eis que tudo será então radiante. É verdade, também, que se o movimento pudesse parar, se fosse possível começar a ver as coisas como elas realmente são, se se examinasse o presente como ele é e não como uma antecâmara do paraíso, então na certa a monstruosidade da ideologia apareceria de súbito. Ficariam bem evidentes o seu ódio à realidade concreta, às simetrias e proporções, aos vínculos pessoais, às liberdades individuais, à paz social. Seu ódio pela arte, pela poesia e pelo pensamento. Seu ódio à contemplação. O totalitarismo está condenado a avançar sempre. Se parar, morre.

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