[Um colaborador do blog italiano de Marco Tosatti, que assina com o pseudônimo de Pezzo Grosso, propõe no texto a seguir um diálogo interessante com as ideias do Cardeal Müller sobre o Grande Reset, que dias atrás traduzimos e publicamos aqui].

(…) O capitalismo nasceu graças ao cristianismo, mas depois da reforma protestante corrompeu o seu espírito original. O capitalismo protestante, ao separar fé e obras, adquiriu autonomia moral. Não se deve esquecer que foi na Alemanha protestante, graças aos excessos do capitalismo protestante, que nasceu o marxismo.

O capitalismo global, ao qual nos referimos aqui, é protestante: tanto o capitalismo americano como o dominante na Europa são frutos da heresia protestante.

O sonho de certo capitalismo, corrompido pelo espírito do protestantismo, sempre foi praticar uma forma de socialismo ou comunismo ditatorial. O capitalismo “corrompido” persegue o monopólio, no mercado, para maximizar o lucro; e o lugar de preferência do monopólio é o Estado dirigista e comunista.

O capitalismo de origem cristã está centrado na dignidade do homem. Deus criou o homem para que trabalhasse; daí a sua vocação para o progresso técnico e científico, que visa aliviar a fadiga humana (desde que, obviamente, respeite as leis naturais). A fim de assegurar ao homem a sua liberdade pessoal, o fruto do seu trabalho deve poder transformar-se em propriedade privada.

É evidente que, quando o homem nega e contradiz as leis naturais, por exemplo a vida e a procriação, ele não só se afadigará com novas e inesperadas dificuldades econômicas e psicológicas. Se tomar decisões políticas que negam sua liberdade pessoal e a propriedade privada (por exemplo, fortalecer um regime estatista e totalitário, que lhe dá a ilusão de resolver problemas), ele certamente não se manterá de pé. É a história que o ensina.

Como prof. Gotti Tedeschi tem nos esclarecido, há anos, o poder econômico chinês foi criado pelo Ocidente, ao deslocalizar a produção, o know-how, a tecnologia e o capital — e tudo por egoísmo, para produzir bens de baixo custo, que tinham de ser consumidos no próprio Ocidente para sustentar o crescimento do PIB (PIB que entrou em colapso, após a decisão de contradizer a mais importante das leis naturais: aquela que se refere à vida humana e à procriação).

Hoje, uma aliança comercial entre o Ocidente e a China faz-se até necessária, para que se evitem problemas piores, incluindo guerras.

Mas eu me recuso a ver uma forma de “capitalismo-socialismo unificado”. Em vez disso, a aliança será entre o falido capitalismo protestante americano e o pragmático e vitorioso comunismo chinês.

Os valores ocidentais, com o WEF (World Economic Forum, de Davos), atingirão em breve o seu ponto de ruptura? Não, pois esse ponto já foi atingido há algum tempo. Já somos escravos, mas de um senhor muito mais terrível: somos escravos do pecado e de suas consequências, sem que o percebamos.

Assim como Karl Rahner falava de um cristianismo anônimo, devemos reconhecer que somos escravos anônimos. Não penso que, no futuro próximo, sejamos escravizados pelo Grande Reset, os Big-Tech, o capital-socialismo e o modelo chinês: já somos escravos. Nós nos tornamos escravos ao rejeitar Deus e a Revelação, preferindo seguir Zaratustra como nosso Messias.

Para nos libertar dessas correntes, precisamos da conversão que a Igreja, hoje, não parece interessada em proporcionar.