Joaquim Nabuco voltou à prática da sua fé, em Londres, no ano de 1892. No dia da confissão, a 28 de maio, nota em seu diário: “No Oratório. Com o Padre Gordon no Confessionário… Levantei-me alegre, contente de mim mesmo, a vida parecendo-me digna de se viver, e o verde da folhagem do Parque radiante de simpatia comigo. A impressão é divina, pode apagar-se (mas está em mim renová-la sempre), mas, enquanto dura, a alma sente-se alada. Foi na capela de mármore, perto de Nossa Senhora das Dores, que a coragem me veio de aproximar-me do confessor. Essa Capela é para mim a nova Fonte de lágrimas, porque eu tinha rezado para poder chorar”.

Poucos meses depois, já no Rio de Janeiro, quis renovar a primeira impressão, voltou ao Confessionário, e, com um pensamento delicado, atribuiu às orações dos escravos a sua purificação consoladora. “Confessei-me hoje”, reza o seu Diário a 22 de dezembro de 1892, “na Matriz de S. João Batista com o Padre Macnamara, irlandês, coadjutor da Lagoa… Quem sabe se as orações dos escravos não concorreram para dar-me a coragem de purificar-me assim? Mesmo quando tinha perdido a fé, eu admirava a grande concepção do Confessionário. O Padre Gordon atribuía à oração dos seus antepassados católicos a sua conversão. Eu quero crer que foram os escravos que ofereceram a Deus por mim algumas de suas amarguras”. [Carolina Nabuco. Vida de Joaquim Nabuco, 1928, p. 338]

A confissão não é ainda a união intima com a divindade, é apenas a purificação interior que a condiciona. Toda a religião é uma orientação da vida em harmonia com uma explicação completa do Universo. O Universo não é compreensível nem pensável senão numa dependência completa e total de Deus. A vida religiosa será, portanto, o reconhecimento desta dependência com todos os corolários que dela derivam e o ato fundamental da religião consistirá no dom completo de si mesmo a Deus, na oblação total da criatura ao Criador. E eis por que a Eucaristia, em que se realiza esta oferta, em união com a oferta de Cristo, é o centro da vida cristã.

O verdadeiro encontro, que, no Itinerário da alma a Deus, une e sela a reconciliação definitiva é a comunhão eucarística. Só quem passou por esta experiencia inefável começa a compreender o mistério de amor infinito que instituiu a presença real do Deus-Redentor no seio da humanidade pecadora. O convertido fica então integrado na vida da Igreja, sente-se membro real da família cristã. Os mistérios da fé, vistos do interior, aparecem-lhe sob outra luz, como os vitrais das nossas Igrejas: de fora, não passam de grandes manchas cinzentas, irregularmente recortadas por divisões de chumbo; de dentro, transfiguram-se inteiramente. Os desenhos ressaltam na harmonia das suas linhas, as tintas iluminam-se na viveza da sua esplêndida policromia. A comunhão, a vida religiosa prática, a experiencia viva do cristianismo dissipa as últimas dúvidas, esclarece e conforta.

Joaquim Nabuco, no dia da sua primeira comunhão de convertido, escreve em suas notas intimas: “Hoje comunguei com o Padre Bos, na capela das Irmãs de Caridade. Pela primeira vez, porque as comunhões do colégio eram em idade em que eu não podia compreender o ato. Graças a Deus, das cinzas da minha fé pude tirar a pequena lâmpada que hoje acendi em honra de Cristo em meu coração e que alumiará a minha morte. Estou grato pelo recolhimento com que recebi o sagrado corpo de Deus e espero que ele se disseminará como alento por todo o meu ser desanimado e como luz pelo abismo que ele trazia dentro de mim. As minhas dúvidas hoje empalideceram todas, fugindo como as corujas do campanário ao raiar do dia”.

O trabalho de reconstrução de sua fé prosseguiu serena e intensamente. “Dia a dia, o vergar da minha razão perante a doutrina católica foi-se tornando mais fácil, enquanto o sentimento de minha liberdade se dilatava em vez de se contrair ao encontro da nova disciplina. O ajustamento do meu pensamento individual ao pensamento comum dos católicos se realizava como que por um puro fenômeno de afinidade. Era-me grato trocar as mil perguntas insolúveis, que são a riqueza inútil do cético, pelo simples onmia mea mecum porto [levo comigo tudo o que é meu] do crente”. [Carolina Nabuco. Vida de Joaquim Nabuco, 1928, p. 339]

[Padre Leonel Franca. A psicologia da fé. 2ª ed. Rio, Civilização Brasileira, 1935, p. 293].