Nesses meses de pandemia, com igrejas fechadas e Missas proibidas, sempre me vinha à lembrança o que ouvi, certa vez, de um padre: segundo ele, depois de nossa morte, Deus não nos perguntará sobre a quantidade de Missas assistidas, mas a quantas pessoas ajudamos.

Haverá, realmente, incompatibilidade entre o “vigiai e orai” e o “amai ao próximo”? É evidente que não. Certa vez, em entrevista ao jornal italiano La nuova bussola quotidiana (09 de maio de 2015), disse algo muito sábio o atual bispo emérito de Ferrara, Don Luigi Negri, discípulo do padre Giussani. Segundo ele, a Igreja não devia preocupar-se só “com a pobreza material, mas com a humana, cultural, espiritual.”

Dizia o bispo Negri: “Disse-o várias vezes aos responsáveis por várias iniciativas caritativas [da Diocese que dirige], as quais, sem dúvida, são importantes e exemplares. Em Ferrara, todos os nossos recursos são gastos com essa terrível pobreza material, que dissolveu a tranquilidade e o bem-estar de tantas famílias. Mas devemos também ser muito claros: apesar de tanta retórica sobre pobres e pobreza, este problema não será resolvido, nem o resolverá a Igreja. O próprio Jesus o disse: ‘Pobres sempre tereis convosco, mas a Mim nem sempre tereis’.

“E mesmo socorrendo cotidianamente os que vivem na pobreza, devemos nos perguntar: estaremos cuidando da pobreza cultural? Essa pobreza cultural que é filha de um vazio existencial, de um vazio de consciência, de humanidade, de capacidade de amor, de capacidade de sacrifício. Se não ficarmos atentos, arriscamos parar por aí mesmo, na diminuição da pobreza material, compartilhando uma concepção materialista da vida. Penso que seria terrível impedir o coração de amar a atual humanidade em todas as suas condições, em todos os seus aspectos, segundo todos os desafios que recebemos. Mas só podemos fazer isto se, no centro, houver o amor a Cristo. Ama-se aos pobres porque se ama o Cristo; é preciso levar à humanidade de hoje – seja pobre ou rica – um único anúncio: Nosso Senhor Jesus Cristo é o redentor do homem e da história, o centro do cosmos e da história.”

A verdadeira Igreja Católica é a que fala pela boca de pessoas como o bispo Luigi Negri. Aquele padre que menosprezava as Missas, em nome da filantropia, era só um pobre homem necessitado de orações, como todos nós.

Atribui-se à Santa Teresa de Calcutá um aforismo que, infelizmente, vai na mesma direção: “São mais sagradas as mãos que ajudam do que os lábios que rezam.” Não parece ser isto o que ensinava Jesus, que mandava fazer as duas coisas: vigiar na oração e amar ao próximo. A verdadeira oração sempre conduzirá ao amor do próximo, seja oferecendo-lhe um prato de comida ou uma grande obra de arte.