A narrativa oficial da epidemia da Covid, como bem sabemos, é a de um microrganismo assustador, um vírus-killer que faz vítimas em todo o mundo e para o qual não há cura. Mas se formos ver os dados epidemiológicos, olhando para além das fronteiras italianas, podemos perceber uma realidade que não é exatamente aquela contada por fontes oficiais. Podemos ver que a Itália está em uma situação difícil, mas não porque o vírus aqui tenha uma maior virulência, tenha variantes mortíferas mais letais. A única coisa letal –  infelizmente não há outra explicação – é o governo italiano.

Na relação entre o número de mortos e a população, a Itália é o segundo pior da Europa. À frente está apenas a Bélgica. E o que é pior: está em terceiro lugar no ranking mundial. Com mais detalhes, a Itália registrou 1.076 mortes por milhão de pessoas, contra 1.548 na Bélgica e 1.108 no Peru. Logo abaixo do pódio estão a Espanha, com 1.019, e depois a Bósnia e a Macedônia do Norte, respectivamente, com 1.006 e 1.005.

E os Estados Unidos de Trump? Muito atrás no ranking, com 886. Mais atrás está o Brasil de Bolsonaro, outro país sempre apontado como uma terra de desastre pandêmico pelas escolhas de seu líder. Folheando o ranking, encontramos outro dado muito significativo: o da Suécia. No país que tem despertado a execração dos amantes do lockdown, por sua opção mais flexível em relação à circulação de pessoas e às atividades, a proporção de óbitos em relação à população é de 744 óbitos por milhão de habitantes.

Por fim, impressionam os dados dos países do hemisfério sul, os países pobres, frequentemente no centro da retórica daqueles que também gostariam de que eles tivessem prioridade na aplicação das vacinas salvadoras dos pobres… Para entender a gravidade do número italiano, é necessário olhar para a África. Nesse continente, o país com maior número de mortes é a África do Sul, um país com alto índice de bem-estar, com 390 mortes por milhão de habitantes. Outros países da África Mediterrânea apresentam situações menos preocupantes. A Argélia, por exemplo, tem 59 mortes por milhão de habitantes. São dados impressionantes. A letalidade da Covid, na África, é um vigésimo da letalidade da Itália, com seus hospitais de excelência, de terapia intensiva, do sistema de saúde presente em todo o território nacional (pelo menos no papel). Como tudo isso pode ser explicado? A resposta é uma só: a estratégia com que o governo italiano lidou com a epidemia está completamente equivocada.

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É inútil que os enaltecedores do nosso governo tentem arranjar desculpas. Por exemplo, não funciona o raciocínio de que a Itália tem uma população bem velha. Pode ter algum valor no confronto com países africanos ou sul-americanos, mas não em relação a outros países europeus ou ao Japão, realidades demograficamente semelhantes, se não até com mais idosos que nós. Mas, enfim, a realidade está aí, para que todos a vejam: a Itália é um país com uma grande fatia da população idosa, com cerca de 23% da população composta de pessoas com mais de 65 anos, enquanto a expectativa de vida chega a 83 anos. Há muito que essa situação devia ter gerado intervenções significativas de incentivo a políticas pró-natalidade, mas isso nunca aconteceu.

Ao contrário: aqueles que apontavam o problema do “inverno demográfico” foram ridicularizados como católicos retrógrados e “familistas”. Ignorou-se, por muito tempo, o problema de uma população idosa que sofria de graves problemas de saúde. Na Itália, 71% das pessoas com mais de 65 anos têm pelo menos dois problemas de saúde e quase metade dos indivíduos, nessa faixa etária, toma cerca de cinco medicamentos por dia.

Essa faixa da população devia ter sido protegida e, em vez disso, o governo falhou clamorosamente. Falhou, para começar, nas estratégias com que lidou com o vírus: o sistema de saúde fazia o que estava a seu alcance, com hospitais ocupados por pessoas que podiam ter sido tratadas em casa. A rede nacional falhou; foram dadas aos médicos mais próximos da população indicações terapêuticas inacreditavelmente soft.

Milhares de pessoas acabavam em tratamento intensivo, depois de tomar apenas paracetamol por vários dias, até que o vírus causasse ao organismo danos muitas vezes irreparáveis. O uso de terapias, que haviam demonstrado eficácia e validade em outros países, foi prejudicado em todos os sentidos. Nos últimos dias, o ministro Speranza culpou a falta de médicos: “O maior problema é a falta de médicos”, disse ele, “você pode comprar máscaras, respiradores e roupas de proteção no mercado internacional, mas não pode comprar médicos, você não pode comprar enfermeiras, não pode comprar pessoal”. Sim, mas se pode lidar melhor com o que se tem. E, da mesma forma que se pode fazer melhor uso do já existente, pode-se também permitir que os médicos utilizem as terapias adequadas, em vez de só prescrever paracetamol. Pode-se aumentar o número de leitos, pode-se melhorar a rede nacional de saúde…

E quanto à estratégia do lockdown? A Blavatnik School of Government, em Oxford, atribuiu à Itália um “índice de gravidade” de 79,6 (a escala máxima chega a 94), semelhante a ditaduras como a venezuelana. O lockdown ao estilo italiano, muito rigoroso e militarizado, obviamente não serviu para evitar o destino de ser a terceira pior situação epidêmica do mundo. Mas, mesmo aqui, os dados devem ser cruzados com outras evidências: se a Itália está em terceiro lugar quanto à letalidade, do ponto de vista da taxa de infecções ela está em trigésimo quinto lugar. O que isto significa? Que talvez se consiga, aqui, mais que em outros países, conter a propagação do vírus (por causa, também, das conhecidas medidas liberticidas adotadas), mas não se consegue curar eficazmente quem adoece. A Itália é muito boa em enviar forças policiais para vigiar bares e ciclovias, mas não é tão eficaz na cura de quem fica doente.

Nossa lista de erros poderia continuar indefinidamente. O resultado, porém, é esse fato assustador e injustificável, que faz da Itália um país do qual se deve fugir para salvar a própria vida. Ou melhor: um país que precisa absolutamente de uma mudança, que não pode mais ser adiada. Uma comissão de inquérito seria necessária para trazer à luz todas as deficiências de estratégia do governo.

Durante a epidemia, o próprio governo fez uso extensivo da linguagem bélica e militarista, a linguagem retórica das “trincheiras”, da “linha de frente”, dos “vencidos” que nada teriam a ver conosco… Mas se quiséssemos usá-la pelo menos uma vez, deveríamos dizer que o que aconteceu na Itália foi um verdadeiro Caporetto da saúde [a palavra Caporetto, nome de famosa batalha no final da 1ª Guerra Mundial, se transformou na Itália em sinônimo de derrota]. E depois de Caporetto, é preciso lembrar, houve uma verdadeira limpeza entre os chefes militares.

https://lanuovabq.it/it/record-di-morti-niente-scuse-il-governo-deve-risponderne