Ultimamente, os escorpiões têm aparecido em maior número na cidade. Chegam pelo cano de esgoto, entram pelos ralos, armam tocaias pela casa. Um dia desses, de chinelo em punho, avancei para massacrar um desses diabos sob a mesa do computador. Quando já tinha desferido o primeiro golpe, vi que não passava de um pobre e indefeso grilo, que ainda saiu dando uns fracos pulos pela sala. A única saída era acabar de matá-lo.

Enquanto removia ao lixo, pesaroso, o cadáver do ex-flautista, me veio à lembrança um outro grilo — o magricela Grilinho, meu aluno há mais de trinta anos em povoado longe daqui, entre Mococa e Guaxupé, na divisa com Minas Gerais. Grilinho, hoje, terá seus quarenta e cinco anos e estará casado, certamente trabalhando nalguma usina de cana da região, com filhos da idade que ele próprio tinha, quando na pequena escola do povoado infernizava a vida de todos nós (o bastante para a gente desejar fazer com ele o que fiz com o falso escorpião).

Era, de longe, o pior aluno da quinta série. Não copiava matéria, mal sabia ler, escrevia uns garranchos que só a custo eu conseguia decifrar. Mal parava sentado na carteira. Enquanto passava no quadro a lição do dia, ele saía pela pequena sala disparando piparotes na cabeça dos moleques, beliscando o braço das meninas. Quando reclamavam e eu me virava, ele já estava de volta ao seu lugar, com a maior cara de santo, alegando completa inocência. Mais de uma vez, tive de livrá-lo de uma tropa de choque de colegas que avançava para trucidá-lo, sedenta de justiça.

As aulas daquela quinta série transcorriam cheias de Grilinho, durante os primeiros meses daquele ano. Ocupava-me mais dele e dos seus inimigos, do que em ensinar a diferença entre o modo indicativo e subjuntivo dos verbos (naquela época, ainda não era proibido ensinar gramática nas escolas).

Um dia, numa gelada manhã de junho, quando cada aluno devia recitar uma quadrinha popular recolhida junto aos familiares (o povoado, bastante rural, era rico dessas manifestações literárias de sabor folclórico), Grilinho se dirigiu solenemente à frente da sala, quando chegou a sua vez, e fez um bico com a boca: em vez de quadrinha, pôs-se a imitar, à perfeição, o canto difícil de um sabiá-laranjeira.

Obviamente, fiquei surpreso. Não contava com aquilo. Parecia estar ouvindo, à minha frente, um sabiá verdadeiro, um triste e desconsolado sabiá que perdera a namorada para um sabiá mais esperto. No final, todos aplaudimos o artista. Nem me passou pela cabeça repreendê-lo pelo descumprimento da tarefa.

Um colega sugeriu outra imitação:

— Deixa ele imitar o canarinho-da-terra, professor.

Grilinho olhou-me como mendigo que pede esmola. Com a imperturbabilidade do juiz atrás da toga, fiz que sim com a cabeça. E tivemos, por alguns minutos, o trinado barroco do canarinho-da-terra, com aplausos ainda mais calorosos no fim do número. Para encerrar o recital, coube-nos um sanhaço perfeitamente imitado. Os sons eram emitidos com leveza de mestre, sugerindo manhãs mais livres que aquela, sem escolas e professores, distantes do nosso pobre sistema público de ensino.

Na semana seguinte, gravei em fita-cassete um disco do ornitólogo Dalgas Frisch, com cantos de boa parte da passarinhada nacional, e trouxe-a de presente ao Grilinho, com uma proposta: ele ensaiaria uma vez por semana um canto diferente de passarinho brasileiro, e o mostraria à classe. Ele pegou a fita, muito contente, e fez uma contraproposta irrecusável: em vez de semanal, prepararia um show para cada final de aula.

E tivemos, pelo resto do ano, os cinco minutos finais das aulas dedicados só às imitações do Grilinho, que escrevia no quadro, quase ilegível, o nome do passarinho do dia e, logo em seguida, levava os dedos à boca para o início do recital. Era admirável a capacidade mimética que Deus tinha dado àquele moleque da roça. Acabaram as suas andanças pela sala piparoteando os colegas e beliscando as meninas. Nosso genial flautista, durante as aulas, era todo concentração, milagrosamente preso à carteira, aguardando ansioso o momento de subir ao palco e arrasar.

Continuou péssimo aluno de gramática e merecia ser retido, mas era impossível reprovar um artista como aquele. Merecia dez o nosso Grilinho.