Diante de Trump, o sistema de poder se fechou em copas e baniu da democracia americana o chefe de Estado combatente, como se esse sistema de poder fosse a própria democracia americana, embora seja apenas um sistema de poder. Tal sistema é feito de muitas peças: com os meios de comunicação, impõe falsas verdades em massa; com a produção cultural, impõe novos direitos que não o são; com o sistema policialesco e jurídico, difama pesadamente e censura a todos os que não se alinham com esses novos direitos.

Em posições-chave — como a Suprema Corte americana — o sistema coloca seus próprios representantes de referência, para deles se valer quando necessário; implementa uma rede de vigilância sobre os cidadãos (ainda que a sociedade moderna seja essencialmente líquida); inventa novos dogmas falsamente democráticos e condena por heresia aqueles que não os seguem; elimina seus oponentes pela cor da gravata ou do cabelo; é belicista que finge ser pacifista; é patriota que, debaixo da mesa, negocia com os próprios inimigos. O sistema é um sistema, uma rede que, como diria Gramsci, “pensa com mil cérebros”, mas em uníssono e, quando chega a hora, tudo converge a um mesmo ponto e o inimigo é esmagado.

A certa altura, Trump rompeu com as expectativas dominantes e contradisse o sistema (que, nos EUA, é principalmente de natureza liberal, mas que também envolve a contraparte republicana). Ele foi um anárquico da democracia americana, um desviado, um herege, um rebelde, um resistente. Ele ousou colocar as mãos na Suprema Corte, ousou condenar o aborto e retirar o financiamento da Planned Parenthood, ousou romper com muitas agências da ONU, ousou romper com os acordos de Paris e condenar o ambientalismo ideológico à Al Gore. Ousou criticar a China e a pensar numa estrutura comercial que não dependesse dela. Atreveu-se a proferir o nome de Deus em praça pública; atreveu-se a dizer que a globalização, que mata nações, é uma nova camisa-de-força; atreveu-se a demolir todos os lugares comuns que a mídia difunde diariamente como um novo evangelho. Enfim, ousou não valer-se do Coronavirus como oportunidade de um novo controle social para a limitação da liberdade.

Tudo isso fez com que o sistema de poder entrasse em lockdown, como uma batata esmagada pelos dedos de uma mão. Nancy Pelosi havia anunciado, antes da eleição, que Biden venceria de qualquer maneira. Para atingir o objetivo, desta vez o sistema também utilizou as armas da fraude e da deslealdade, tomado pela ansiedade diante do enorme valor da disputa em jogo. Utilizou os eventos do Capitólio para denunciar uma sedição inexistente e pintar todos os quatro anos do mandato de Trump como um parêntese da democracia (que os americanos estavam finalmente recuperando com Biden). A verdade era precisamente o oposto: nos quatro anos de Trump, a democracia havia dado muitos sinais de vida (insuportáveis para o sistema).

Hoje, o mundo todo comenta a crise da democracia americana. O sistema voltou a ocupar a Casa Branca, mas há uma América desprezada, sumariamente rotulada de populista e nacionalista, de retrógrada e grosseira, que se sente (democraticamente) excluída. É a América dos “descartados”, de quem talvez o Papa Francisco — o papa dos “descartados” — não se ocupará, dada a expressa oferta de colaboração que ele dirigiu ao presidente Biden e, portanto, ao sistema.

Diante dessa cisão do país, o mais importante a fazer é entender que a crise da democracia americana é resultado de uma certa forma de entender a própria democracia. A democracia tende, naturalmente, a criar um sistema oligárquico e, de fato, todas as democracias ocidentais são exatamente isso, inclusive a italiana, sobretudo no atual bloqueio do sistema. Isso ocorre porque ela tem como referência uma liberdade originária considerada como absoluta, portanto não relacionada e, portanto, negociável. Se a liberdade se baseia em princípios não negociáveis, não pode ser comprada. Se, em sua base, nada houver além de si mesma, pode ser negociada no mercado político.

O sistema já implementou uma série muito ampla de estratégias para comprar essa liberdade, estratégias que passam, todas elas, pelo respeito formal da democracia. Quando João Paulo II e Bento XVI falavam da democracia como possível sistema totalitário, eles se referiam a isto. O fechamento em pinça do sistema democrático americano demonstra que não tinha mais a ver com democracia, porque pressupunha uma ideia de liberdade como algo negociável.

Por outro lado, o que Trump fez de importante nesses quatro anos, embora o tenha feito com suas gravatas pouco bostonianas e seu topete amarelo-ondulado de proprietário de concessionária de automóveis? Valeu-se de argumentos que fundam a própria liberdade e que, portanto, a tornam não negociável pelo sistema: a vida, Deus, a nação como comunidade natural, a fé, a lei natural. Essas são as armas com as quais ele tentou lutar contra o sistema e revitalizar a democracia.

Trump foi um rebelde. Vamos ver se foi só um fenômeno passageiro ou se terá continuação.

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