Um livro de reflexão é válido se tiver a capacidade de abarcar plenamente o tema de que trata e se produzir uma visão convincente, de modo a contribuir para uma melhor síntese em benefício não só da tese apresentada, mas da verdade como tal. Por outras palavras: se permite conhecer melhor e com maior profundidade, dando um passo adiante no caminho da verdade. Visto que o livro do bispo Athanasius Schneider (Christus vincit. O triunfo de Cristo sobre as trevas de nosso tempo. Verona, Fede & Cultura,  2020, 382 p.) faz exatamente isso, então deve ser dito que é um bom livro, o que, traduzido para o jargão editorial, significa um livro que deve ser lido.

Não ficou de fora nenhum problema relevante na vida atual da Igreja, sempre havendo como pano de fundo a Igreja de todos os tempos. O livro enfrenta corajosamente todas as dificuldades, todos os estorvos, todas as questões em aberto. E para cada um deles tem uma proposta clara. O islã, o diálogo inter-religioso, Abu Dhabi, o Vaticano II, a confusão doutrinal, a perda do sobrenatural, a “reforma da reforma” litúrgica, o terceiro segredo de Fátima, o papel de Pedro na Igreja, Amoris laetitia, o ecologismo e o globalismo eclesiástico, o acordo do Vaticano com a China, as “dubia”, a nova moral sexual, a intercomunhão com os protestantes, a descentralização doutrinal, a pena de morte… Nenhum dos grandes problemas da Igreja foi negligenciado, destacando-se mais os internos do que os externos.

Um aspecto que, antes de qualquer outro, impressiona o leitor, é a apreensiva avaliação do momento presente: “Uma tremendo estado de confusão quanto à doutrina, à moral e à liturgia. A Igreja, em nossos dias, está infectada com o vírus de um naturalismo egoístico e da adaptação ao espírito do mundo descrente. O clero, quando em posições de responsabilidade, dobra seus joelhos perante o mundo” (p.185-186). Afirmações como esta retornam ao longo do livro: “Creio que atualmente os fiéis, em grande parte, são enganados pelo clero” (p. 167); “a inundação está atingindo níveis de alerta, estamos experimentando o ápice do desastre” (p. 164); “Hoje vivemos o predomínio total do modernismo na vida da Igreja e nas faculdades de teologia. Até certo ponto, o modernismo se infiltrou até nos documentos do Magistério” (p. 165). É neste quadro que o livro faz surgir a certeza da fé a respeito da Vitória de Cristo.

No entanto, essa certeza não impede, na verdade exige, que todos façam a sua parte. Os muitos problemas da crise, o autor os aborda com toda a sabedoria de que é capaz e, para muitos deles, não hesita em afirmar que os futuros papas terão de corrigir os erros ou ambiguidades presentes nos documentos do recente magistério. Os pontos, sobre os quais o bispo Schneider está seguro, pela fé, que requerem ajustes — os quais, mais cedo ou mais tarde, serão feitos pelo Magistério supremo —, dizem respeito, sobretudo, a algumas afirmações do Vaticano II e da exortação Amoris Laetitia.

O Vaticano II — afirma ele — é certamente válido e ensinou muitas coisas importantes que, anteriormente, o Magistério ainda não tinha plenamente trazido à luz. Schneider não é um negacionista do Concílio. Certamente, ele rejeita a ideia de que tenha havido um parêntese de 1700 anos, entre Constantino e o Vaticano II, mas reconhece que “a maioria dos textos do Concílio Vaticano II não apresentam rupturas e estão em clara continuidade com a tradição constante da Igreja” (p. 151). Segundo o bispo Schneider, no entanto, devem ser reconsiderados o nº 16 da Lumen gentium, onde se diz que católicos e muçulmanos “adoram conosco um único Deus”; o nº 2 e 4 da Dignitatis humanae, onde se ensina que o direito de escolher religião se baseia na dignidade da pessoa humana; e muitas passagens de Nostre aetate (sobre as relações com as demais religiões). O mesmo deve ocorrer com algumas ambiguidades, como a incerteza da Gaudium et spes sobre a prioridade do fim procriativo no casamento (que gerou o cânon 1055 do Código de Direito Canônico que, segundo ele, deveria ser reescrito); ou a ambiguidade da frase “A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica”, presente em Dominus Jesus e que é proveniente da Lumen gentium, que já teve alguns esclarecimentos. “Talvez os futuros papas possam simplesmente retomar as frases ambíguas dos textos conciliares — que graças a Deus não são tão numerosas — e dizer: não estão de acordo com a tradição da Igreja” (p. 223).

Segundo Schneider, é errôneo o novo ensinamento sobre a pena de morte, inserido pelo Papa Francisco no Catecismo. Também neste caso, “não há dúvida de que um futuro sucessor do Papa Francisco, ou um futuro Concílio ecumênico, corrigirá esta mudança drástica no ensino permanente da Igreja”.

Semelhante é o caso do capítulo VIII da exortação Amoris laetitia que, segundo nosso autor, não deve ser rejeitado “da primeira à última linha, mas apenas algumas afirmações deste capítulo que estão realmente equivocadas” (p. 223).

A ampla revisão da situação da Igreja em nosso tempo, contida neste livro, aborda todos os aspectos não apenas da doutrina, mas também da práxis da Igreja atual: da papolatria injustificada ao excesso de reuniões e comissões, do apoio à nova ordem mundial ao trágico acordo com a China.

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