Se uma das razões da democracia é proteger a maioria mais frágil da hegemonia da minoria mais poderosa, mais que nunca é preciso hoje, na universidade (especialmente nas ciências humanas e nas artes), defender a frágil minoria dos alunos mais inteligentes da massacrante maioria dos alunos mais despreparados intelectualmente. É assunto da mais alta seriedade: trata-se de todo um ano letivo jogado fora, na obrigação impossível de servir a dois senhores: a massificação universitária e o compromisso com a cultura mais elevada.

Com as porteiras populisticamente abertas das universidades públicas (mas também das privadas), sobretudo nas humanidades, para a grande massa de alunos mal instruídos que chegam do ensino médio, o professor habitualmente se defronta com dois tipos de alunos: a minoria apta para enfrentar o conhecimento acumulado em cada área de estudos, e a maioria amorfa dos despreparados, que chegam aos cursos superiores tangidos por uma equivocada concepção de universidade.

Esta dualidade provoca no ambiente acadêmico uma cômica inversão de papéis, obrigando nossas melhores mentes a caminhar em “adágio” ou “andante”, quando seus músculos pedem um “allegro moderato” ou “vivace” (para usar a linguagem musical), enquanto os demais se debatem e suam diante de conceitos que não conseguem assimilar. Os primeiros são colocados em ostensivo e desperdiçado banho-maria, para que se possa, “democraticamente”, socorrer os demais.

Se isto não é atitude decente em relação àqueles que escolheram conscientemente a sua área de estudos, depois de prestado um estressante exame vestibular, será muito menos para com a maioria não qualificada, seguramente mais útil à sociedade se aproveitada em atividades mais práticas que acadêmicas (ambas louváveis na mesma medida, se desempenhadas honestamente).

O mau professor de português, incapaz de proferir uma frase sem insultar a gramática, seria uma pessoa profissionalmente mais digna noutra área de atuação. Não nasceu para a interpretação de textos, mas para outras coisas — tão nobres como analisar um canto da Divina Comédia dantesca ou decifrar um parágrafo complicado de filosofia alemã. É inimaginável uma brutalidade maior do que a cometida pela universidade contra alunos não vocacionados para o ensino superior, maldosamente compelidos a uma mediocridade que não merecem.

No fundo, quem é o principal responsável por essa deplorável violência, senão o próprio poder político que, indiferentemente à esquerda ou à direita, só se sente bem entre grandes números? Quanto mais alunos ingressando em nossas pobres humanidades, melhor para a estatística oficial. O deplorável é que essa condescendência dos vestibulares costuma ser vergonhosamente endossada pela própria corporação dos professores, seja por equívoco ideológico ou pelo temor da redução de vagas docentes.

É preciso cuidar melhor dos três por cento das pessoas que, no Brasil, estão acima da inteligência média brasileira. Pensando nos números da população atual, seriam mais de seis milhões de cidadãos. O futuro de um país depende, entre outras coisas, da formação de seus melhores jovens, que ocuparão os postos de lideranças nas mídias, nos laboratórios, nas escolas, nas empresas, nas igrejas, nas artes etc. O país jamais sairá do atoleiro cultural, em que notoriamente se encontra, sem a mediação consciente das lideranças científicas, religiosas e culturais, devidamente capacitadas intelectual e moralmente.

Há os que, por influência do socialismo mais radical, preferem um igualitarismo homogeneizante, fruto do pecado capital da inveja, qualificando levianamente de elitista ou fascista o cuidado especial dispensado àqueles que, entre nós, se revelam mais dotados intelectualmente. Ao contrário, não há forma mais digna e cristã de caridade do que favorecer, pela educação, a plenitude dos talentos que Deus concedeu aos homens.