O festival de virologia na mídia parece não ter fim. Depois da overdose de informações obsessivas e repetitivas sobre a Covid-19, agora é a vez da ênfase nas vacinas. Todos os cientistas passam horas, nas transmissões televisivas mais populares, alimentando o “culto da ampola” e bombardeando o público com garantias sobre a eficácia e confiabilidade da vacina, além da insistência na necessidade de inocular o remédio o mais rápido possível na população inteira, ou pelo menos em 60% dela, a fim de alcançar a tão almejada imunidade de rebanho, preparatória ao retorno à chamada vida normal.

É com conta-gotas, por outro lado, que as notícias sobre outros medicamentos anti-Covid (como o recente remédio baseado em anticorpos monoclonais) aparecem na mesma mídia, estavelmente monopolizada pela celebração das vacinas.

Tudo isso redimensiona a primazia que a informação de qualidade havia reivindicado na primeira etapa da emergência sanitária, entre março e maio, e macula de forma significativa a credibilidade da categoria dos jornalistas. Parece que a consciência de muitos jornalistas, que atuam na linha de frente do registro da evolução da pandemia, esteja anestesiada. A homogeneização da narrativa dominante, de que a Covid deve ser tratada apenas no hospital e que só pode ser enfrentada com um extensivo lockdown, é uma das principais falhas do jornalismo nos últimos meses. Continua a dominar um alarmismo sensacionalista e uma dramatização da dor, que pouco têm a ver com o direito de informar (e que, pelo contrário, distanciam os cidadãos de uma compreensão correta do que se passa em nosso país e para além das fronteiras nacionais).

O equilíbrio entre o direito à informação e a proteção à saúde parece um tanto problemático, dada a expectativa messiânica em torno da vacina anti-Covid e as reações que se registram diante das manifestações de ceticismo sobre sua capacidade de nos livrar da pandemia.

Na verdade, não existem verdades absolutas e uma abordagem dogmática do assunto corre o risco de se tornar falaciosa e, portanto, desaconselhável. Por isso, equivale a uma atitude de bom senso suspender o julgamento sobre as vacinas, enquanto se esperam os testes, esclarecendo que fazê-lo não é necessariamente uma aposta e nem mesmo uma simples formalidade. O pluralismo de opiniões é o sal da democracia da informação; qualquer forma velada ou notória de pensamento único sobre a Covid e suas vacinas, só pode ser catalogada como violência ditatorial.

Em nível nacional, no que se refere à produção de conteúdos jornalísticos sobre vacinas e, em geral, sobre a emergência sanitária que vivemos, cabe destacar uma inovação muito importante em matéria de deontologia. Nos últimos dias, o Conselho Nacional da Ordem dos Jornalistas atualizou o texto único dos deveres do jornalista, integrando o artigo 6º, que antes se intitulava “Deveres no tratamento de pessoas frágeis” e que passou a se chamar “Deveres no tratamento de pessoas frágeis. Informação científica e sanitária”. Portanto, pela primeira vez, é reconhecida uma identidade profissional específica para o jornalismo científico e sanitário.

A previsão de um papel crucial para este segmento de informação deriva dos acréscimos substanciais que o texto do artigo 6º sofreu no mês passado e que estão destacados a seguir: “O jornalista deve evitar o sensacionalismo na publicação de notícias sobre temas científicos que poderia dar origem a temores ou esperanças infundados, tendo o cuidado de indicar o tempo necessário para novas pesquisas e experimentações; dará conta também, caso não haja certezas a respeito de um tema, das diferentes posições em campo e as diferentes análises, em conformidade com o princípio da completude da notícia; c) divulgue notícias científicas e sobre saúde somente se verificadas em fontes qualificadas, de proveniência nacional ou internacional, bem como em entidades de pesquisa italianas e internacionais, destacando qualquer informação que venha a ser falsa; d) não mencione o nome comercial de medicamentos e produtos, em contexto que possa favorecer o seu consumo, e forneça prontamente informações sobre aqueles retirados ou suspensos por serem nocivos à saúde”. Essas alterações entrarão em vigor em 1º de janeiro de 2021.

Portanto, em âmbito médico-sanitário, e na representação de situações de dor e desconforto, os inscritos na Ordem dos Jornalistas são obrigados, pelo texto único de 2016 sobre os deveres do jornalista e pelas cartas deontológicas anteriores (em particular a de Perugia, de 1995), a ancorar-se firmemente em fontes institucionais que revelem evidências científicas, uma estável disposição para verificar os materiais e testemunhos disponíveis, e uma imperturbável equidistância entre dois excessos igualmente deploráveis: o sensacionalismo alarmista e a euforia minimalista.

O papel da mídia, conforme emerge da correta interpretação dos princípios éticos e deontológicos, não é alimentar impulsos derrotistas e autodestrutivos, nem legitimar comportamentos laxistas em relação às regras ditadas para proteger nossa saúde. Em vez disso, uma espécie de polarização foi criada entre dois campos extremistas: de um lado, os alarmistas em tempo integral; e de outro, os minimalistas, que estão sempre prontos para encontrar motivos para comparar a Covid-19 com a gripe influenza e outras patologias do passado.

Já que ninguém tem a verdade no bolso, seria necessário, principalmente, respeitar os pontos de vista de todos, sem, no entanto, renunciar a compreender e a colocar questões. Na democracia, a dúvida não é um crime, mas sinal de maturidade, seja sobre os efeitos do vírus, seja sobre a confiabilidade das vacinas.

https://lanuovabq.it/it/giornalismo-scientifico-purche-sia-di-qualita