Enfim, mais um Natal em nossas vidas, desta vez em circunstâncias bastante atípicas, com as pessoas vivendo na defensiva, temerosas de um vírus mais agressivo que o habitual, que as deixam ridiculamente escondidas por trás de máscaras de duvidoso poder protetor, angustiadamente esperando por uma vacina mágica que lhes restitua a liberdade perdida.

Mas é Natal. Mais uma vez, alguns cristãos se reunirão (apesar das restrições de culto nas igrejas) para comemorar o acontecimento mais importante da história humana: o nascimento do Deus que, por excesso de amor, se fez homem.

Só um amor além de toda a medida poderia der causa de tão misteriosa doação, de tão misteriosa humilhação. Para mostrar como foi grande a humildade de Deus ao encarnar-se num corpo humano — um corpo de homem pobre, de família simples, nascido num estábulo —, um padre certa vez mencionou, em homilia, o famoso conto do escritor judeu-tcheco Franz Kafka, “A metamorfose”.

Em síntese, “A metamorfose” conta a história de Gregor Samsa, que amanhece subitamente transformado em grande inseto. E o padre perguntava aos seus fiéis: “Como reagiria a alma de cada um de vocês, se de repente acordasse dentro do corpo de um inseto? De maneira muito pouco tranquila e confortável, eu imagino.”

Contudo, a transformação em inseto do pobre Gregor não consegue, nem de longe, sugerir o tamanho da humilhação do Deus infinito e todo-poderoso transmudado em ser humano, o Criador sujeito ao frágil corpo humano da criatura Jesus, com todas as limitações e problemas que oferece um corpo humano (“esse bicho da terra tão pequeno”, como dizia Camões em “Os Lusíadas”).

Para quem crê no que ensina o cristianismo, ou seja, que Deus veio ser um de nós e nasceu como nós, o Natal é o grande aniversário desse fato incomum: na verdade, o mais incomum de todos os fatos.

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Ocorre, porém, que esse sentido comemorativo e a dimensão religiosa do Natal praticamente se perderam: mais que qualquer outra coisa, 25 de dezembro significa, hoje, apenas o ponto de partida das festividades de fim de ano, que serão coroadas, na última noite do mês, com o “réveillon” (do verbo francês “réveiller”, despertar). É a grande festa neopagã do recomeço de tudo, da retomada de um novo ciclo de tempo, que tem início na já tradicional troca de presentes natalinos e finaliza com o quase carnaval em que se transformou a velha ceia da virada de ano.

Obviamente, tudo isso é benéfico para a economia de mercado, que agradece o aumento das atividades industriais, comerciais, turísticas etc. É época de sair de férias, repor as energias (físicas e psíquicas) gastas no ano que termina, recarregando as baterias para o desafio do próximo ciclo de tempo que se anuncia.

É desejável que o mercado vá bem. É bom que as pessoas festejem, passeiem, descansem, recomponham-se para o novo ano que virá. Nada disso, em si, é negativo e problemático. O problema começa, realmente, quando se perde o sentido sobrenatural da vida e as festas de fim de ano se despojam completamente do significado cristão que sempre as caracterizaram. Sem a perspectiva da eternidade, as festas, os passeios e as férias se revestem de uma tentativa desesperada de ocultar a verdade de nossa finitude, a transitoriedade de nossa vida terrena, duas coisas que o coronavírus deixou vem evidentes.

Infelizmente, o Natal — aniversário de nascimento do Deus feito carne — é um mistério cuja grandeza o homem de hoje compreende cada vez menos.