Uma porcentagem considerável de católicos comprometidos desistiu das artes — literatura, poesia, artes visuais, música e cinema —, pelo menos das artes produzidas para a arena pública. E há também os católicos que construíram um muro entre suas crenças e o entretenimento que buscam na ficção, nos filmes e na música, separando sua fé daquilo que leem, veem ou escutam.

O problema com atitudes semelhantes é que a sociedade moderna, em grande parte, é modelada pelas artes, e o fluxo constante de arte que deprecia e ridiculariza as crenças católicas, com poucas exceções compensatórias, está produzindo uma sociedade dogmaticamente niilista e autoindulgente. Por mais de um século, a arte foi julgada pelas lentes de uma espécie de niilismo estético, que afirma que não há nada de transcendente no mundo, nada que seja objetivamente Verdadeiro, Belo ou Bom; tudo é efêmero, subjetivo e, em última instância, aniquilado pelas forças da natureza. Dessa maneira, a arte que contém uma perspectiva transcendente, não importa se bem realizada, não seria séria por definição.

Infelizmente, essa lente mais banalizou a cultura do que a elevou, com as opiniões subjetivas de uma elite artística que se orgulha de seu intelecto superior e sua discriminação. Isso não quer dizer que toda arte pública que se produz hoje careça de valor, mas quem pode negar que o fio escuro do niilismo e do materialismo infectou grande parte dela? Quem, hoje, se deixa tocar, inquietar e despertar pelas artes mais elevadas?

A arte sacra é essencial, dignifica nossas igrejas, liturgias, orações e muitas outras experiências de vida, mas a arte sacra não é suficiente. O envolvimento católico com a arte secular é mais essencial do que nunca. Mas como isso pode ocorrer, em uma sociedade que é amplamente desconfiada da fé tradicional em geral, e do catolicismo em particular, e que se aborrece quando o assunto são valores e moralidade? Tal sociedade dificilmente será fermentada recorrendo-se a dogmas ou textos bíblicos; uma sociedade assim requer uma espécie de proto-evangelização.

Esse estado de coisas, culturalmente árido, significa que o que importa não é produzir arte católica, mas produzir arte a partir de uma perspectiva católica. Joseph Pearce, em seu livro Literary Giants, Literary Catholics, identifica e estuda muitos romancistas, ensaístas, jornalistas, poetas e até artistas visuais católicos que, apesar de suas falhas e fraquezas, exerceram um efeito profundo em suas sociedades por meio de sua arte: entre eles, J.R.R. Tolkien, G.K. Chesterton, Evelyn Waugh, T.S. Eliot e Salvador Dali. Os americanos Flannery O’Connor e William F. Buckley também poderiam ser adicionados a essa lista, junto com o músico de jazz Dave Brubeck e o cineasta anglo-americano Alfred Hitchcock. Nenhum deles é predominantemente conhecido por produzir arte católica, mas muito de seu trabalho foi imbuído de uma perspectiva católica ou de uma sensibilidade católica. Certamente, há católicos hoje que estão produzindo arte nesse sentido, mas são muito poucos, e boa parte é ignorada por outros católicos e cristãos, porque seu trabalho não é explicitamente católico, nem tão excitante quanto aquele encontrado na arena secular.

Sobre Flannery O’Connor, que em sua época escreveu sobre as características do romance “católico”, Pearce escreve: “Não é necessariamente sobre um mundo cristianizado ou catolicizado, mas é simplesmente aquele em que a verdade, tal como os cristãos a conhecem, foi usada como luz para melhor iluminar o mundo”. Outra maneira de dizer isto é a seguinte: a arte, com perspectiva católica, não precisa ser infantilizada ou parecer que foi feita para jovens;  Sangue sábio, de Flannery O’Connor, e Brideshead revisitada, de Evelyn Waugh certamente não o são. Filmes como A sombra de uma dúvida, dirigido por Hitchcock, e O terceiro homem, com roteiro de Graham Greene, embora retratando uma desordem grave, também mostram “a verdade como os cristãos a conhecem (…) usada como uma luz para iluminar o mundo”. Essa perspectiva também pode ser aplicada à poesia, artes visuais e música.

Tem-se a sensação de que Waugh, O’Connor, Eliot e Tolkien escreveram as histórias que queriam contar, e que essas histórias exalavam uma perspectiva católica, porque uma afinidade com a Beleza, a Verdade e o Bem estava plantada profundamente dentro deles, como uma semente germinando; e não porque eles tomaram uma decisão explícita de evangelizar por meio de seus escritos. Assim, os leitores conservam a liberdade de aplicar a história às suas próprias experiências e anseios, ao invés de serem usados como peões pelos autores (é assim que Tolkien descreve a diferença entre aplicação e alegoria).

Se os católicos cederem a arte pública a ateus e niilistas, como temos feito nas últimas décadas, a cultura continuará a sofrer erosões. Algumas das artes mais vanguardistas de hoje são profundamente desumanizantes, e quando o senso da especificidade humana (sagrada para os cristãos) é perdida, só resta cuidar dos direitos humanos. Um utilitarismo frio e úmido está preenchendo o vazio. Devemos marchar para esta praça pública com ousadia, engolindo se necessário o remédio das críticas, tanto as válidas quanto as ideologicamente orientadas; mas também devemos marchar com energia criativa, levando junto nossa perspectiva e nossa sensibilidade católicas, de uma forma que sejam acessíveis às pessoas de boa vontade e discernimento.

Quanto às artes, precisamos de engajamento, não de indiferença. [https://www.catholicworldreport.com/2012/10/22/catholics-and-the-arts-an-unfortunate-estrangement/]