Em 2020 comemorou-se não só o 130º aniversário de nascimento de Charles de Gaulle, como também o 50º aniversário da sua morte. Na cerimônia de comemoração, em seu túmulo em Colombey-les-Deux-Églises, havia no entanto apenas trinta pessoas, e a tradicional Missa em sua homenagem foi cancelada devido à pandemia. Trinta: o mesmo limite imposto — e rejeitado pelo Conselho de Estado —, por seu sucessor Emmanuel Macron, para o número de fiéis autorizados a participar das celebrações litúrgicas, durante este segundo lockdown francês. O cancelamento da Missa em sua homenagem, no aniversário de meio século de sua morte, e a realização da cerimônia militar, por si só não fizeram jus à memória do General, porque — como lembrou seu filho Philippe, em certa ocasião, lamentando o fato que de seu pai só se falasse enquanto “político patriota — ele “caminhava sobre duas pernas: seu patriotismo e sua fé cristã”.

Charles de Gaulle nasceu em Lille, em 1890, em uma família profundamente católica, filho de um professor de história e literatura de um colégio jesuíta, que lhe transmitiu o amor pela Tradição; e modelado pelo ramo materno, do qual herdou a sensibilidade pela questão social, despertada pela publicação da encíclica Rerum Novarum. A inspiração para a doutrina social da Igreja caracterizou sua ação política durante os anos em que foi presidente, e, como estadista, continua a ser um exemplo de saudável laicidade, mantendo os valores nacionais bem enraiados no húmus cristão.

O General adestrou-se intelectualmente nos textos de escritores e pensadores católicos do calibre de um Ernest Psichari, Georges Bernanos, François Mauriac e François-René de Chateaubriand. Mas, acima de tudo, De Gaulle permaneceu para o resto de sua vida um crente fervoroso e praticante, que fez da fé “a força-motriz de sua vida”, como seu filho Philippe lembrou. Foi assim que se portou em seus anos de exílio em Londres, quando se tornou o chefe da Resistência Francesa ao nazi-fascismo, para a qual escolheu como símbolo uma bandeira tricolor com a cruz de Lorena. Uma cruz para os homens livres, contra a suástica daqueles que os desejariam escravos.

Em junho de 1942, ao saber da primeira vitória das Forças Francesas Livres, na batalha de Bir-Hakeim, o então chefe do governo no exílio foi imediatamente a uma capela católica em Londres para cantar o Magnificat. O hino de gratidão ao Senhor também acompanhou seu retorno triunfal à Paris libertada, em agosto de 1944, dentro de uma catedral de Notre Dame à qual foi negada a entrada ao cardeal Suhard, arcebispo acusado, por alguns dos líderes da Resistência, de colaboracionista com o regime de Vichy. Um gesto contrário à sua vontade, como relatou anos depois nas suas memórias, mas ao qual se resignou para não exasperar os ânimos dos mais anticlericais, ao mesmo tempo que se preparava para dar sinais tranquilizadores na direção de Roma, com uma carta respeitosa a Pio XII, na qual mencionou os “interesses espirituais do povo francês” e o “respeito que temos pelas lembranças mais queridas da nossa fé cristã, bem como pelo património religioso, intelectual e moral que representa”. No imediato pós-guerra, o chefe de estado francês encontrou no Vaticano dois esteios, que seriam ainda mais úteis após sua ascensão à presidência da República, em 1958: o cardeal Eugène Tisserant (apelidado de “cardeal de Gaulle” na Cúria, por causa de suas simpatias gaullistas) e Monsenhor Angelo Roncalli, núncio apostólico em Paris de ’44 a ’53. No Conclave de 1958, ocorrido poucos meses depois de sua recondução ao poder e o fim da Quarta República, Roncalli foi eleito Papa para alegria do General, que em 27 de junho de 1959 foi ao Vaticano em visita oficial, ajoelhando-se diante do papa e pronunciando esta frase: “Depositamos, em nome da França, os nossos respeitos aos teus pés”. Para a próxima visita de um presidente da República Francesa ao Vaticano, seria preciso esperar por Jacques Chirac, em janeiro de 1996, no pontificado de São João Paulo II.

Durante a década de sua presidência, De Gaulle, o “soldado e líder dos franceses” que não se curvou diante de Hitler, muitas vezes permitiu que fosse fotografado em oração, ajoelhado diante do Santíssimo Sacramento. Nos Elíseos, construiu uma pequena capela com vista para o pátio de honra, onde seu sobrinho François (padre missionário na África) às vezes celebrava a Missa, e na qual se destacava a presença de um ícone de bronze de Nossa Senhora Negra de Czestochowa, presente dos bispos poloneses.

A proximidade com as igrejas perseguidas, em países do bloco soviético, foi um dos traços que caracterizaram sua capacidade de conjugar experiência de fé e opções políticas: durante uma viagem oficial à União Soviética, em 1966, exigiu a reabertura da igreja de Nossa Senhora de Lourdes, em Leningrado, fechada durante cinquenta anos, não só para que pudesse participar da celebração da Missa dominical junto da esposa, mas também para dar um sinal simbólico de apoio às comunidades católicas que estavam sob o jugo comunista. A fé de De Gaulle foi alimentada, no contexto familiar, pelo seu casamento com Yvonne, uma primeira-dama que tinha um estilo simples e discreto, o que fez com que, na época em que viviam nos Elíseos, fosse ridicularizada por seu catolicismo fervoroso e até retratada como fanática religiosa.

A fé e a união do casal foram reforçadas com o nascimento da filha Anne, que sofria da síndrome de Down (nascida 31 anos antes que o cientista Jérôme Lejeune identificasse o problema como uma trissomia do cromossomo 21) e muito amada pelo General. A um capelão militar, em 1940, confidenciou: “Esta menina é a minha alegria e a minha força, uma graça de Deus em minha vida, que me ajuda a olhar para além de todos os fracassos e honras, mirando sempre mais para o alto”.

Na França das décadas de 1920 e 1930, a deficiência de uma criança era causa de preconceito e maledicência em relação aos pais, e, muitas vezes, essas crianças, chamadas de “mongolóides”, eram abandonadas à própria sorte em hospitais especializados ou escondidas das outras pessoas, por vergonha. A família de De Gaulle, ao contrário, consolada pela fé, acolheu Anne como “uma criança como todas as outras” (foram as palavras de Charles logo após o nascimento), envolvendo-a de atenção e ternura. Uma famosa foto em preto e branco retrata o General, de paletó e gravata, embalando divertido a menina, numa praia, numa pose a que os franceses, que só conheciam o soldado altivo e respeitável, não estavam habituados.

De Gaulle procurava ensinar orações a Anne, enquanto sua esposa trabalhava pela abertura de uma casa para hospedar meninas com deficiência e em condições econômicas precárias. A morte da terceira filha, em 1948, foi uma dura prova para o General, que comentou: “Sua alma agora está livre, mas causou-nos imensa dor a morte desta nossa filha que tanto sofreu”. Leva seu nome a Fundação que mantinha a casa para crianças com deficiência, tão desejada por Yvonne e que foi confiada a freiras; a ela deixou em herança o produto da venda das suas memórias.

Em seu testamento, que já estava escrito em 1952, o libertador da França disse que não queria um funeral de Estado: pediu para ser enterrado em Colombey-les-Deux-Églises, junto da filha Anne. E assim foi sua morte, em 1970. Seu caixão, decorado com um crucifixo, foi levado à igreja de Champagne-Ardenne sem música e fanfarra. Seu filho Philippe explicou: “Para meu pai, a liturgia romana era bonita o suficiente para enterrar um cristão, para quem a morte é um triunfo”.

Cinquenta anos depois de sua morte, é decepcionante vê-lo lembrado com uma cerimônia secular, sem Missa. A ideia que tinha da França aquele general, que considerou o batismo de Clóvis o acontecimento mais importante da história nacional, não encontra mais correspondência em um país no qual o poder do Estado limita a liberdade de culto mesmo no Natal. E, no entanto, a vitalidade dos fiéis franceses, em protesto contra a proibição, dá esperança de que ainda existam por lá aqueles que — como queria De Gaulle — “ainda estão animados pela chama cristã, aquela que lança a luz do amor e da fraternidade no vale das dores humanas; aquela da qual, século após século, tem se acendido a inspiração espiritual e moral da França ”.

https://lanuovabq.it/it/il-de-gaulle-dimenticato-cattolico-difensore-della-fede