Quando eu era criança, na escola paroquial, começávamos todas as manhãs com a Missa diária. Minha mãe trabalhava à noite, e ninguém em minha família acordava cedo. Eu, inevitavelmente, chegava atrasado à igreja. As freiras me olhavam com desaprovação, enquanto eu deslizava entre meus colegas de classe mais pontuais, em nossos bancos previamente marcados. Essa dose diária de vergonha foi um bom treinamento para a vida adulta, tornando-me imune à pressão dos colegas.

A Missa, celebrada inteiramente em língua latina, pouco significava para mim. Eu a suportava, respeitosamente, como um exercício obrigatório. Ficava aliviado quando o culto terminava e partíamos para nossas salas de aula do outro lado da rua. O que me impressionou foi a própria igreja: a São José era maior do que a velha catedral de Los Angeles. Era um dos únicos dois edifícios em minha cidade natal, Hawthorne, Califórnia, que poderia ser chamado de belo. (O outro era o Plaza, um antigo prédio de cinema agora demolido.) Eu gostava de estar dentro do interior alto e fresco da São José, que era iluminada por grandes vitrais com imagens dos apóstolos e alguns santos.

Na primeira sexta-feira de cada mês, entretanto, havia uma outra cerimônia, chamada Benção. Já tendo participado da Missa pela manhã, éramos novamente conduzidos à igreja, à tarde, para participar de um ritual curto, mas bem cuidado, em homenagem à Eucaristia.

O padre, vestindo uma túnica especial sobre suas vestes, entrava acompanhado de vários coroinhas. Velas tinham sido acesas; grandes e sufocantes nuvens de incenso se espalhavam. Quando o padre se aproximava do altar, cantávamos um hino em latim chamado “O Salutaris Hostia”, cujos versos líamos em pequenos cartões laminados. Eu não sabia o que as palavras significavam. (Presumi que hóstia significasse o anfitrião da comunhão, o que, é claro, não era verdade.) [hóstia soa parecido a host, em inglês “anfitrião”]. Embora gostasse de cantar esse hino, não era o meu favorito.

Os católicos americanos têm uma compreensão da música sacra diferente dos protestantes. Cantar é menos importante para nossas tradições de culto. A diferença era especialmente grande antes do Concílio Vaticano II. Os católicos raramente cantavam na igreja. Não havia música nas missas comuns, mesmo aos domingos. A música era reservada para as missas solenes, cujo canto era principalmente em latim. Minha paróquia de Los Angeles, em 1960, não parecia muito diferente de 1660.

Na Benção, porém, os hinos desempenhavam um papel central. A música dava ao serviço religioso um aspecto de ocasião especial. Ouvir o poderoso órgão da igreja de São José, que enchia o amplo espaço, me dava uma verdadeira emoção física. Foi a música ao vivo mais poderosa que já tinha ouvido. Acrescente-se a esse estrondo titânico as vozes de setecentas crianças da escola paroquial cantando em latim, lideradas por uma dúzia de Irmãs da Providência, e será fácil adivinhar a minha admiração e assombro.

Quando o padre abria o tabernáculo brilhante, no centro do altar de mármore, e colocava a hóstia consagrada em um ostensório dourado, levantávamo-nos para cantar um pequeno hino de veneração à Eucaristia. Este hino, o “Tantum Ergo”, tem me causado assombro nos últimos sessenta anos. Em cada cerimônia, aguardava o início do canto e me punha a acompanhá-lo numa espécie de transe abençoado, que sempre acabava cedo demais…

Eis aqui o hino. Se o leitor não souber o que as palavras significam, não se preocupe; nem eu sei. Nem pretendo traduzi-lo agora (isso tem a ver é o ponto central do ensaio).

Tantum ergo Sacramentum
Veneremur cernui:
Et antiquum documentum
Novo cedat ritui:
Praestet fides supplementum
Sensuum defectui.

Genitori, Genitoque
Laus et jubilatio,
Salus, honor, virtus quoque
Sit et benedictio:
Procedenti ab utroque
Compar sit laudatio.

Já na terceira série, o texto estava indelevelmente memorizado por mim, embora a única palavra que entendia fosse sacramentum. O significado literal das palavras parecia sem importância, se comparado à experiência de cantar. Naquela época, eu não sentia nenhum apego genuíno ao que as irmãs reverentemente chamavam de “Santíssimo Sacramento”. (Essa devoção veio muito mais tarde.) A Eucaristia era principalmente uma ideia abstrata. Experimentava algo santo, mas do qual não podia participar. Mas, enquanto cantava esse pequeno hino com todos os meus amigos e professores, sentia-me fisicamente arrebatado e extasiado naquele ato de veneração.

Como adulto, não posso julgar com precisão se essa experiência foi espiritual ou estética. Suspeito que essas duas categorias de percepção sejam mais interdependentes do que a maioria das pessoas acredita, especialmente em uma criança. Sei, pelas minhas primeiras lembranças, que o “Tantum Ergo” me pareceu profundamente sublime. Aqueles dois minutos de cada mês eram mais belos do que qualquer coisa que ocorresse fora das portas da igreja, nas ruas feias de minha cidade natal. O hino adquiriu um significado peculiar: uma teia de anseios e associações profundas, de estreias intelectuais e espirituais que eu ainda não compreendia.

Raramente recebia a comunhão, em geral apenas no Natal e na Páscoa. Fomos instruídos a receber o sacramento apenas em “estado de graça”. Em minha mente jovem e complicada, eu era um pecador notório. Mesmo antes da puberdade, sempre me senti culpado por alguma coisa.

Por ser diferente das outras crianças — sonhador, solitário, estudioso —, minha mera existência já parecia algo vagamente culpado. Se não saltasse diretamente do confessionário para a amurada da comunhão, na certa tropeçaria de novo na perdição. Portanto, não foi a Missa, à qual assistia apaticamente seis vezes por semana, que me levou aos mistérios da fé; foram aquelas menos frequentes Bênçãos do Santíssimo. Só nelas é que eu mergulhava momentaneamente minha autoconsciência na alegre comunhão musical, cantando palavras antigas e enigmáticas em honra de uma inexplicável transubstanciação.

Na faculdade, descobri que os versos intrincadamente rimados foram escritos por Santo Tomás de Aquino para a nova festa de Corpus Christi, um ano antes do nascimento de Dante. O poema, portanto, data de um momento específico da cultura ocidental. Parecia que o latim estava prestes a dar lugar ao italiano como língua literária, e a Idade Média estava se movendo em direção ao Renascimento. Esse fato agora parece significativo para mim.

Babel era minha cidade natal. Fui criado no século XIII de Los Angeles, em um bairro de língua espanhola, por imigrantes italianos e mestiços integrados, que faziam seus cultos em latim, em uma cidade cuja língua oficial era o inglês… O latim não era uma língua morta; era simplesmente aquela reservada às coisas sagradas — como cantar —, em um lugar cheio de dialetos concorrentes. Ainda criança, via o jargão da minha família mudar, à medida que o inglês substituía as línguas da geração mais velha. Não, o “Tantum Ergo” não soava estranho. Palavras antigas, trazidas de um mundo antigo, eram a minha realidade diária.

As velhas práticas, como Santo Tomás notou, davam lugar a novos ritos (“Et antiquum documentum, / Novo cedat ritui”). Quando terminei o ensino médio, o Vaticano II abandonou o latim da Missa e da maioria dos rituais. Ainda rezávamos em latim, mas então apenas nas aulas de Latim, quando nos levantávamos para recitar um rápido “Pater Noster”, antes de atacarmos mais quarenta versos de Virgílio. Na Missa, nessa época, cantávamos hinos populares compostos por músicos jesuítas amadores. Se o inferno tem um hinário, essas músicas estarão entre as suas páginas iniciais. Quase ninguém cantava. A multidão, na Missa de domingo, diminuía a cada ano.

Ninguém percebeu a banalidade da nova liturgia tão intensamente quanto um certo adolescente da Califórnia. Para mim, aggiornamento tornou-se addio. Depois de terminar o ensino médio, em 1969, deixei de ir à Missa por quase vinte anos, exceto no Natal e na Páscoa com minha mãe. Nunca abandonei a Igreja. Simplesmente não aparecia por lá. A fome permaneceu, porém insatisfeita. Finalmente, na meia-idade, aceitei a música ruim como punição por meus pecados e voltei a praticar a fé.

Com o passar dos anos, percebi que não era a única criança profundamente afetada por aquele hino. Quando o “Tantum Ergo” é mencionado entre os católicos da minha geração, muitas vezes alguém começa a cantarolar. Já vi isso acontecer até em bares. As palavras e a melodia despertam uma profunda memória coletiva.

O hino de Tomás de Aquino foi parar até mesmo em meu libreto para a ópera Tony­Caruso’s Final Broadcast. Quando sugeri o emprego do “Tantum Ergo” ao compositor Paul Salerni, ele imediatamente começou a cantarolar as palavras ao telefone. Acabamos usando a melodia duas vezes na ópera:  prirmeiro com a letra e a melodia tradicionais, depois com a melodia invertida para criar um novo coro. Alguns anos depois, durante um almoço no clube de professores da USC [Universidade do Sul da Califórnia], mencionei o hino ao historiador Kevin Starr. Depois de cantar a primeira estrofe, ele me deu uma explicação teológica em sua voz estrondosa. “‘Praestet fides Supplementum’, Dana! ‘A fé fornece um suplemento às deficiências de nossos sentidos!’” A conversa acabou nas mesas próximas. Sim, esse hino tem um efeito espantoso sobre os velhos católicos.

Minha afeição particular pelo hino provavelmente se origina de uma combinação de fatores pessoais e impessoais. Em primeiro lugar, havia a ressonante beleza dos versos de Tomás de Aquino ajustados à majestosa melodia setecentista de Samuel Webbe. Em segundo lugar, havia minha experiência pessoal de cantar na igreja as suas palavras repetidamente, durante anos, com meus colegas, no primeiro grande espaço construído que vi na minha vida. Por fim, havia o mistério da Eucaristia, que compreendi, inicialmente, não por meio da educação teológica, mas pela beleza do canto.

Como artista, aprendi algo mais com os hinos em latim: que a arte é misteriosa. Ela chega até nós por modos que não compreendemos totalmente. O sentido literal de uma canção ou poema é apenas parte de seu significado. O som físico e o ritmo exercem um poder de encantamento que escapa à paráfrase explicativa. Nossa intuição muitas vezes ultrapassa nosso intelecto, e a música antecipa o significado do texto. Quem canta, reza duas vezes, às vezes sem saber.

https://www.firstthings.com/article/2017/06/singing-aquinas-in-la