A Igreja não se contentava só em reconhecer que a humanidade dependia visceralmente da família; que a união física do homem e da mulher, resultando quase sempre em filhos, era a razão de ser da espécie humana. A essa realidade biológica e natural, acrescentava elementos sobrenaturais, que faziam da família cristã não só um grupo constituído de pessoas com parentesco próximo, compartilhando o mesmo sobrenome, vivendo sob o mesmo teto, com ancestrais em comum; não só um conjunto de pessoas ligadas entre si pelos dez mandamentos, as virtudes evangélicas e o efêmero sangue humano. Era tudo isto, e muito mais, pois o que ligava definitivamente os seus membros entre si era o sangue redentor de Cristo.

Ser família é o destino eterno do homem e da própria divindade, que é inequivocamente uma família — Pai, Filho, Espírito Santo —, refletida na mais perfeita família humana de que se tem notícia na História, a de Nazaré, formada por um homem que era Deus e dois seres humanos que foram santos. A família de Nazaré lançou o padrão espiritual de convivência familiar desejável para os Últimos Tempos (que já passam de dois mil anos). Desgraçadamente, só se imita hoje da família nazarena o pragmatismo neo-malthusiano do filho único.

Ninguém, que tenha fé, duvida das intenções do Criador de eternamente incorporar à Trindade divina toda a humanidade criada: o Paraíso foi programado para ser a maior de todas as famílias.

Do ponto de vista cristão, os homens já podiam integrar essa família celeste ainda neste mundo, vivendo sob a mesma paternidade divina, através da Igreja, família sobrenatural — a Civitas Dei de Santo Agostinho — que já significava a primeira superação da família biológica, com seus membros já definitivos povoando o Purgatório e o Céu; e os provisórios, que são os cristãos ainda vivos.

Insistir na ressurreição dos mortos e no Paraíso como lar eterno de uma família numerosíssima — em que todos os membros serão fraternalmente íntimos de todos, pois terão toda a eternidade para se conhecer — sempre foi o principal meio de atração da Igreja, o centro vivo de sua pregação,  enquanto conduzia o rebanho pelos pastos turvos do mundo, durante as chuvas e trovoadas da História.