[Ainda sem tradução para o português, saiu em julho deste ano a obra Covid-19: A grande reinicialização do economista alemão Klaus Martin Schwab (escrito com Thierry Malleret). Schwab fundou em 1971 o Fórum Econômico Mundial, que todo ano reúne em Davos, Suíça, a “nata” empresarial, política e intelectual do mundo globalizado, para conversar sobre as questões mais prementes da nova ordem mundial. Covid-19: A grande reinicialização trata da rara oportunidade que a pandemia estaria oferecendo aos senhores do mundo para a viravolta da História, o grande reset, o novo normal… O livro, no fundo, é a pauta que será discutida na próxima conferência do Fórum Econômico Mundial, sempre em Davos, no próximo janeiro de 2021. Neste blog, publicamos recentemente algumas matérias que tratam desse “grande reset”: sobretudo aqui, mas também aqui e aqui. A seguir, um trecho do livro publicado no site do Fórum, que dá alguma ideia desse projeto insano de construir um mundo novo completamente sem Deus.]

Apenas seis meses após o início da pandemia, o mundo não é mais o que conhecemos. Nesse curto espaço de tempo, a Covid-19 desencadeou mudanças dramáticas e amplificou as divisões que já afetam nossas economias e sociedades. Desigualdades crescentes, um senso generalizado de injustiça, aprofundamento das divisões geopolíticas, polarização política, déficits públicos crescentes e altos níveis de dívida, governança global ineficaz ou inexistente, financeirização excessiva, degradação do meio ambiente: estes são alguns dos principais desafios que existiam antes da pandemia. A crise do coronavírus exacerbou todos eles.

O desastre do Covid-19 poderia ser o relâmpago que antecede o trovão? Ele teria força para desencadear uma série de mudanças profundas?

Não podemos saber como será o mundo daqui a dez meses, muito menos daqui a dez anos, mas o que sabemos é que se não fizermos nada para redefinir o mundo de hoje, o mundo de amanhã será profundamente afetado. Em Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel Garcia Márquez, uma aldeia inteira prevê uma catástrofe iminente, mas nenhum dos aldeões parece capaz ou disposto a agir para evitá-la, até que seja tarde demais. Não queremos ser esta aldeia.

Para evitar isso, precisamos iniciar a Grande Reinicialização imediatamente. Este não é um “bônus”, mas uma necessidade absoluta. Não levar em conta, nem buscar reparar os males, profundamente enraizados em nossas sociedades e economias, poderia aumentar o risco, como tem ocorrido ao longo da história, de uma reinicialização imposta por choques violentos, como conflitos ou até mesmo revoluções. Cabe a nós pegar esse touro pelos chifres. A pandemia nos dá essa chance: representa uma janela de oportunidade rara, embora estreita, para refletir, reimaginar e reinicializar nosso mundo.

A profunda crise causada pela pandemia nos deu muitas oportunidades para refletir sobre a forma como nossas economias e sociedades operam e os impasses que enfrentam. O veredito parece claro: precisamos mudar. Mas somos capazes disso? Vamos aprender com os erros que cometemos no passado? A pandemia abrirá a porta para um futuro melhor? Vamos colocar em ordem essa nossa casa grande, que é o mundo? Simplificando: vamos implementar a Grande Reinicialização? Essa reinicialização é uma tarefa ambiciosa, talvez ambiciosa demais, mas não temos escolha a não ser fazer tudo o que pudermos para concluí-la.

Trata-se de tornar o mundo menos divisivo, menos poluente, menos destruidor, mais inclusivo, mais equitativo e mais justo do que aquele em que vivemos na era pré-pandêmica. Não fazer nada, ou fazer de menos, equivale a avançar às cegas em direção a cada vez maiores desigualdades sociais, desequilíbrios econômicos, injustiças e degradação ambiental. Deixar de agir seria equivalente a deixar nosso mundo se tornar mais perverso, mais dividido, mais perigoso, mais egoísta e simplesmente insuportável para grandes segmentos da população mundial. Não fazer nada não é uma opção viável.

No entanto, a Grande Reinicialização está longe de ser um negócio concluído. Alguns podem rejeitar a necessidade de seguir este caminho, temendo a grandiosidade da tarefa e esperando que o sentimento de urgência desapareça e a situação volte logo ao “normal”.

O argumento em favor da passividade é este: já passamos por choques semelhantes antes — pandemias, recessões brutais, divisões geopolíticas e tensões sociais — e vamos passar por eles novamente. Como sempre, as sociedades se reconstruirão e também nossas economias. A vida continua! Os argumentos contra a reinicialização também se baseiam na crença de que o mundo não é tão ruim e que resolver alguns detalhes será suficiente para melhorá-lo.

É verdade que a situação do mundo é, em média, muito melhor hoje do que no passado. É preciso admitir, como seres humanos, que nunca tivemos antes uma tal sorte. Quase todos os indicadores-chave que medem nosso bem-estar coletivo (como o número de pessoas que vivem na pobreza ou morrem devido a conflitos, PIB per capita, expectativa de vida ou taxa de alfabetização e até mesmo o número de mortes causadas por pandemias), melhoraram de forma constante nos últimos séculos e de forma impressionante nas últimas décadas.

Mas essas melhorias são apenas médias: uma realidade estatística que não faz sentido para aqueles que se sentem (e com tanta frequência) excluídos. Portanto, a crença de que o mundo de hoje é melhor do que nunca, embora correta, não pode ser usada como uma desculpa para se contentar com o status quo e não remediar os numerosos males que continuam a afligir o nosso mundo.

Estamos agora em uma encruzilhada. Apenas um caminho nos levará a um mundo melhor: mais inclusivo, mais justo e mais respeitoso com a Mãe Natureza. O outro nos levará a um mundo semelhante ao que acabamos de deixar para trás, só que pior e sempre cheio de surpresas desagradáveis. Portanto, temos que fazer as coisas como devem ser feitas. Os desafios que temos pela frente podem ser maiores do que imaginamos até agora, mas nossa capacidade de recomeçar do zero também poderia ser melhor do que antes ousávamos esperar.

https://fr.weforum.org/agenda/2020/09/covid-19-la-grande-reinitialisation/