Todos sabíamos que a disputa eleitoral nos EUA não era uma coisa interna, só dos que vivem na América. Tinha, e continua a ter, um caráter emblemático: Trump e Biden representam não só dois partidos americanos, mas duas visões de mundo.

Sabemos, os que vivemos na América do Sul e ainda somos cristãos, que as ideologias que mais nos ameaçam são o comunismo, que sobreviveu em países como a China, Coreia do Norte e Cuba após a aparente mudança de regime na Rússia soviética, e o capitalismo globalista — cuja marionete do momento é o candidato Joe Biden —, ávido por estabelecer no planeta uma nova ordem mundial (que seria um retorno à velha ordem pré-cristã, se não contivesse elementos jamais sonhados pelo velho paganismo greco-romano).

O capitalismo globalista, que faz com a moral cristã o mesmo que os adeptos da revolução social e cultural à Gramsci, adquiriu força sobretudo a partir da Segunda Grande Guerra, quando pessoas ligadas à elite financeira, empresarial e política, espalhadas pelas Américas, Europa e parte da Ásia, passaram a defender a tese, originalmente maçônica, de que a humanidade devia abandonar a ideia de soberania nacional — que Donald Trump ousou valentemente defender nos últimos quatro anos — e adotar, progressivamente, um internacionalismo político que acabaria resultando em uma espécie de governo planetário, única e presumível forma de salvar o planeta ameaçado pela superpopulação e a degradação ambiental.

Para comprovar que não se trata de delírio complotista ou conspiracionismo, basta ler-se o que escrevem os próprios defensores da causa, que obviamente não dizem tudo o que pensam ou fazem, como em toda guerra ideológica. Um destacado advogado atual da causa globalista é o diplomata americano Richard Haass, que é presidente desde 2003 de um influente centro de pesquisas não governamental: o think thank Conselho de Relações Exteriores (Council on Foreign Relations, CFR). Em artigo de 2017, “Ordem Mundial 2.0”, publicado em Foreign Affairs, revista do CFR, Haas contrapõe duas ordens mundiais, a velha e a nova, caracterizadas por duas formas distintas, quando não opostas, de fazer política, negócios e cultura em geral.

A velha ordem mundial, que batiza de Ordem Mundial 1.0, prevaleceu no Ocidente desde o tratado de paz de Westphalia, em 1648, que encerrou a Guerra dos Trinta Anos na Europa, entre católicos e protestantes. Desse tratado, saiu fortalecido o conceito de soberania nacional, garantindo aos países o direito de ser eles mesmos, dentro de suas fronteiras, suas tradições, sua cultura. A ordem internacional derivada desse propósito visava dar ao mundo mais estabilidade e menos guerras.

Haass não toca no assunto, mas sabemos que tinha soado a hora das religiões, causas potenciais de conflitos, começarem a apear da esfera pública e cada vez mais restringirem seu raio de influência à própria comunidade religiosa. Foi grande o esforço empreendido pela mentalidade liberal e maçônica, nos séculos XVIII e XIX, para diminuir a influência religiosa, sobretudo católica, nos âmbitos da política, da educação e da cultura em geral.

Nas últimas décadas, porém, surgiu uma corrente de pensamento geopolítico que considerava essa Ordem Mundial 1.0, baseada na soberania das nações, insuficiente para atender às demandas de um mundo globalizado — a aldeia global de que falava o sociólogo canadense Marshall McLuhan: o mundo tornado surpreendentemente pequeno pelas telecomunicações e os novos meios de transporte.

Alegam os defensores de uma “nova ordem mundial” que, hoje em dia, nada mais permanece local. Tudo é global, diz Richard Haas, desde turistas, terroristas e refugiados, até e-mails, doenças, dólares e gases de efeito estufa; tudo isto pode chegar a quase todos os lugares. Portanto, se o que acontece em cada país não deve mais ser preocupação exclusiva das respectivas nações, seria necessário um novo ordenamento jurídico e político do mundo, em que as soberanias nacionais se curvassem a certas obrigações planetárias.

Interpretemos com palavras simples, sem eufemismos diplomáticos, essa vênia das nações a “certas obrigações planetárias”: a aldeia global necessitaria de um governo único, politicamente centralizado, de economia capitalista, uma espécie de mega China intercontinental.

Esse capitalismo globalista (representado na recente eleição americana por Biden) pouco teria a ver, evidentemente, com o capitalismo tradicional (representado por Trump), mais ou menos satisfeito com a defesa, em cada nação soberana, da liberdade de possuir bens e empreender obras, fundado no Estado constitucional e na alternância do poder — um sistema político que deixa as pessoas livres para escolher entre o bem e o mal, a fé e a descrença, mas punidas sempre que incomodarem o funcionamento geral do grupo.

Se o falso católico Biden (abortista, ambientalista, pró-casamento homossexual) levar a melhor, o anticristo terá dado mais um passo importante na conquista do mundo.