“Um dos comentários que mais se ouve, quando se fala da epidemia, é que no fundo não se sabe nada, que existem opiniões contraditórias e, portanto, é necessário acatar as informações oficiais. Mas não é assim. Existem fatos objetivos relacionados à epidemia que devem ser reconhecidos. Alguns, de tipo epidemiológico, estão aí, diante dos nossos olhos: são os números, as taxas, as percentagens, que nos dizem que o coronavírus não é o ébola nem a peste medieval, etc. Mas há outros, igualmente sob nossas fuças: que somos cada vez mais privados de liberdade, que há alguém que está revolucionando radicalmente nosso modo de viver e nossa sociedade. Para ajudar a entender o que realmente está acontecendo, o ensaio de Aldo Maria Valli, Virus e leviatã (editora Liberlibri), chegou recentemente às livrarias. Aquele que foi durante anos o vaticanista italiano mais influente, antes que se aposentasse às pressas, nos dá uma das análises mais lúcidas da epidemia que já foram escritas até agora. Deixemos que ele nos fale das principais ideias do livro” (Paolo Gulisano, médico e escritor).

Paolo Gulisano: Em vários países, e em particular na Itália, por ocasião da epidemia do coronavírus, uma verdadeira reviravolta autoritária ocorreu em pouco tempo, e quase sem oposição. Como explica isso?

Aldo Maria Valli: Acredito que, em nível nacional, esta foi a maneira mais rápida e fácil de o governo agir, apesar de sua fraqueza e falta de preparação. Incapaz de uma resposta articulada e temeroso de confronto, o executivo passou por cima do Parlamento e assumiu a função legislativa. Mas tudo se encaixa em um quadro mais amplo, em um experimento de engenharia social planetária inspirado por “santuários” globalistas que estão bem acima dos governos particulares, e, em relação aos quais, um governo como o nosso parece estar agindo como idiota útil.

Você afirma que o dogmatismo, há muito excluído da esfera religiosa, em particular numa Igreja Católica que se gaba de ser líquida e não dogmática, reapareceu na forma de intransigência médico-científica.

Sim, se pensarmos bem, temos uma verdadeira e própria forma de fideísmo. Temos a Trindade (Ciência, Saúde, Segurança), o pecado (de não colaborar com as autoridades inspiradas pela comissão técnico-científica), a punição (é literalmente excomungado e expulso da comunidade o que não colabora), as sagradas escrituras (os meios de comunicação alinhados com a narrativa dominante), o proselitismo da tecnociência, a identificação da crença (no Comitê técnico-científico) com a salvação (do corpo). Temos até os fanáticos (que julgam a todos e, se necessário, excomungam). Falo de fideísmo, porque religião é outra coisa, é fé e razão, fides et ratio. Em vez disso, estamos quase de volta à superstição.

Em seu livro Virus e Leviatã, você descreve magistralmente o estabelecimento de um despotismo particular, que você definiu como “compartilhado”.

Defino-o assim, porque de fato a opinião pública e a sociedade civil não se opuseram, mas aderiram prontamente a esta forma de despotismo, sob a influência decisiva do terror propagado pela grande imprensa. É como se todos, o mundo político e a opinião pública, tivessem reconhecido que o sistema parlamentar é um luxo que podemos permitir em uma situação de normalidade, mas não quando nos deparamos com uma situação verdadeiramente estressante como a atual. Mas este é um precedente perigoso. Se alguém conseguisse transformar uma situação de emergência em normalidade, o que aconteceria? Quem nos garante que o experimento de engenharia social não pode ser repetido de forma ainda mais danosa?

Outra definição eficaz, em seu livro, é a de Homo Timorosus… É o tipo humano com que nós, homens livres, estamos destinados a viver no futuro? E a que preço e com que esforço?

O Homo Timorosus tem a pretensão de estar protegido de tudo, a salvaguardo de qualquer risco. Aceita sacrificar a sua própria liberdade para ter a vida preservada. Comete suicídio por medo de morrer. A imunidade é seu grande mito. É o oposto do homem viril e adulto, consciente e corajoso. É uma eterna criança submetida à ingerência de um Estado-mamãe que o intima: não faça isso, não faça aquilo, não corra, não mexa. Mas tudo isto é, obviamente, uma ilusão.

Um especialista do Vaticano, como você, não poderia deixar de lado, no livro, ao que está acontecendo na Igreja.

Triste espetáculo. Passamos da santificação à higienização. Nós nos tornamos adoradores do Álcool Gel. Tratamos Nosso Senhor como um contaminador. A liturgia foi profanada. A Igreja se tornou a Igreja do Estado, totalmente ajoelhada diante dos ditames do governo. Jamais se viu uma demanda por liberdade e autonomia, mas uma aquiescência total. Uma Igreja vítima do terror, que não conseguiu nos dizer nada sobre a morte, o sofrimento, o pecado, e que estava muito mais disposta a aproveitar a oportunidade para proibir a genuflexão e a recepção da Comunhão na boca.

A atual operação de “reset” da sociedade está trazendo de volta certas ideias comunistas que pareciam desaparecidas para sempre…

Muitos sinais disto já se veem por aí. Temos um valor supremo, a Saúde, em relação à qual tudo é sacrificável, a começar pela liberdade. Temos os guardiães da revolução, induzidos a sê-lo por informações que adquiriram conotações propagandísticas. Temos os delatores, que em nome do valor supremo estão prontos para denunciar os réprobos. Temos o ataque à liberdade religiosa e de culto. Temos os slogans (“Fica em casa”, “Tudo acabará bem”, “Juntos venceremos”, que lembram “Trabalhadores unidos jamais serão vencidos”, “Hasta la victoria siempre. Patria o muerte”). Temos a imprensa subjugada. Temos o grande terror. Por enquanto só faltam os gulag…

Um escritor distópico inglês, Aldous Huxley, escreveu que “a revolução verdadeiramente revolucionária deve ser realizada não no mundo exterior, mas na alma e na carne dos seres humanos”. É isso que está acontecendo hoje, na sua opinião?

Perfeitamente. Ela é internalizada. Colabora para esse fim a narrativa imposta pela imprensa alinhada, narrativa reforçada diariamente pelos telejornais nos horários nobres. É necessário que o cidadão, transformado em servo (e potencialmente doente) implore ao governo-médico que lhe dê o tratamento necessário. A revolução perfeita é aquela em que a vítima se acorrenta por si mesma. Étienne de La Boétie falou do assunto, em seu Discurso sobre a servidão voluntária: “São, portanto, os povos mesmos que se deixam acorrentar… É o povo que se faz servo, que se degola a si próprio; que, podendo escolher entre servidão e liberdade, recusa a sua independência e se submete ao jugo… “. Assim estamos nós.

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