Charles-Henri d’Andigné: Qual é a diferença entre o Islã e o islamismo?

Rémi Brague: A diferença entre o islã e o islamismo é real, mas acho que é de grau, não de natureza. O islamismo é o islã levado ao seu limite, o islã nas suas últimas consequências. Ainda assim, é uma religião incomum, uma religião na qual seus convertidos podem ser forçados a assassinar seus semelhantes. Quando alguém se converte ao budismo, pode se tornar vegetariano; quando alguém se converte ao cristianismo, tenta amar o próximo como a si mesmo, o que não é pouca coisa… Alguns convertidos ao islã acreditam que é necessário matar o próximo de uma maneira concreta, degolando-o.

É como dizer que todos os muçulmanos são terroristas em potencial?

Obviamente, não estou dizendo que todos os muçulmanos são violentos, nem que só haja violência no islã. Mas eu digo que, nas fontes islâmicas, há tudo o que é necessário para justificar o uso da violência: ou se recorre a ela ou não. Observem-se as instituições muçulmanas de fato, como a mesquita: elas sofreram muita interferência do Estado Islâmico, que aliás nada fazia além do que diz a biografia do Profeta. Casar guerreiros com meninas de 9 anos foi o que o profeta fez com Aïcha. Quando o Estado Islâmico queimou um piloto jordaniano vivo, justificaram-no assim: é a lei do talião, pois ele havia lançado bombas. Seus argumentos são sólidos!

A violência islâmica, segundo Jean Duchesne, é resultado do encontro entre o islã e o Ocidente. O que pensa a respeito?

Há muita verdade nessa ideia. Especialmente porque aquele encontro sofreu uma inversão. No século XIX, era o Ocidente que entrava nas sociedades muçulmanas por meio da colonização. Atualmente, os muçulmanos fazem o que a sharia proíbe como princípio, ou seja, estabelecer-se voluntariamente em um país de infiéis. O islã está mais violento. Os muçulmanos se encontram no “mundo da guerra”, ou seja, em um mundo não pacificado, não sujeito ao Islã. No “mundo da guerra”, não é absurdo se comportar como um guerreiro.

Essa violência indica que há uma crise no mundo muçulmano?

Há uma crise no mundo muçulmano, devido a uma esquizofrenia que data de muitos séculos. O islã se apresenta como a última religião. “Hoje aperfeiçoei a vossa religião”, diz Deus no Alcorão (V, 4). Supõe-se que o islã deva englobar o judaísmo e o cristianismo, realizá-los, substituí-los como quando um guarda assume o lugar de outro guarda, e elevá-los a um nível superior. O islã é a melhor religião, a melhor comunidade (III, 110). Ora, o mundo muçulmano é a luz vermelha do mundo, e quanto mais perto se chega do centro, pior é. Sem petróleo, o que seria da Arábia Saudita? O islã, enquanto melhor religião, ia adquirindo credibilidade à medida que progredia a sua cultura. É o que costumava acontecer. Os conquistadores tiraram a sorte grande, apoderando-se das regiões mais fecundas intelectual e culturalmente: Egito, Mesopotâmia e Síria, lugares onde se inventaram o império (Pérsia), a escrita (Mesopotâmia), o alfabeto (Fenícia). Em torno de 90% dos sábios da época eram dessa região. Galeno era de Pérgamo; Ptolomeu de Alexandria; Damascio, evidentemente, de Damasco; Siriano da Síria, Plotino do Egito… Não é de estranhar que tenha havido esse florescimento cultural no mundo árabe-muçulmano, auxiliado pelo fato de todos falarem a mesma língua, o árabe, o que favorecia a comunicação entre as elites. No entanto, a partir do século XI o religioso e o cultural foram relegados a um canto. A cultura árabe-muçulmana estagnou-se. Nunca mais foi a mesma. Quantos prêmios Nobel são cientistas muçulmanos? Dois, e ambos formados em Oxford. Que invenção o mundo muçulmano deu ao mundo? Daí o sofrimento; a religião que deveria ser a melhor é, na verdade, um cancro…. Isso pode levar a atitudes de extrema tensão e violência.

Atentados, fátuas… O “quid” da violência está no Alcorão?

Há um pouco de tudo no Alcorão. Está cheio de contradições. Se está cheio de contradições, diz o Alcorão, elas não podem vir de Deus (IV, 82). Como manter junto tudo isso? Pela teoria da revogação: um versículo posterior revoga o anterior. Se dois versículos contêm mandamentos contraditórios, o mais recente questiona o anterior. É preciso saber que a sura 9 é a mais guerreira de todas: “Combatei contra aqueles [que não] seguem a verdadeira religião, até que prestem o tributo submissamente, com as próprias mãos” (IX, 5 e 29). Este versículo abole os anteriores, especialmente aqueles que falam de paz e tolerância.

O Alcorão incentiva a violência ou apenas a permite?

Há, apesar de tudo, versículos que a ordenam. Quando se diz que há que atacar essa ou aquela pessoa, significa o que realmente significa. É mais do que permitir. Mas o problema da violência não é o principal. A verdadeira questão é a verdade. Não porque seja falsa a afirmação “o Islã é violento”; mas porque “o falso é violento”. Há que encontrar-se uma maneira de se impor. Observe-se a História. O islã começou com a invasão árabe realizada por guerreiros.

É possível interpretar o Alcorão?

Há bibliotecas inteiras com comentários sobre o Alcorão, dizem os muçulmanos. Mas comentar não é interpretar. Há dois tipos de interpretação. O primeiro modelo é o do juízo imparcial. Qual foi a intenção do legislador? Como o legislador é um homem, ele não pode prever todos os casos. Quando é apresentado ao juiz um processo, em que a aplicação da lei causaria grave injustiça, o juiz remonta à intenção do legislador para aplicar ou não a lei. Se Deus é o legislador que tudo sabe, isto muda tudo. Se ele disser: “Coloque um véu”, isto significa: “Coloque um véu”. Daí o segundo modelo de interpretação, que diz respeito à palavra. O que é um véu? É longo ou curto, opaco ou transparente?

O islã é compatível com a democracia? No mundo muçulmano, o sr. diz, prevalece “a ideia de que o único legislador legítimo, em última instância, é Deus, e que nenhuma decisão legislativa humana pode ir contra seus mandamentos”. Qual é a diferença em relação ao cristianismo?

A diferença é que Deus fala conosco através da consciência, e não por um livro. A diferença é a forma como o Verbo se concretizou. Para o cristianismo, o Verbo de Deus se fez “carne”, isto é, uma pessoa: Ele se encarnou. Para o islã, o Verbo de Deus se fez livro. O que é decisivo para nós, cristãos, é a vida, morte e ressurreição de Cristo. É isto que dá sentido às suas palavras. Tudo o que Ele diz é iluminado a partir do que Ele é (o Filho de Deus) e pelo que Ele faz (morrer por nós). A Palavra de Deus não é um mandamento, é um modelo. Não é um princípio jurídico, como no islã. Para os filósofos árabes medievais, há muitas espécies de governo: o governo de si mesmo, o governo da família — “economia”, em grego — e o governo da cidade, que é a política. A política é apenas uma parte dessa arte do governo, que está sujeita à lei de Deus. A democracia é uma forma de organizar a vida da cidade. Numa democracia islâmica, cada deputado será governado, dentro de si mesmo, pela obrigação de respeitar a lei de Deus. Não pode tomar uma decisão legislativa que seja contrária a uma ou outra forma da sharia em vigor. Será sempre um legislador com restrições. Em uma democracia cristã, cada deputado está sujeito, não à lei de Deus, mas à sua consciência. [Publicado originalmente em Famille Chretienne]

https://infovaticana.com/2020/11/07/remi-brague-el-islamismo-es-el-islam-llevado-al-limite/.