Engana-se quem pensa que a Esquerda (isto é, o marxismo) fracassou porque já não se preocupa mais com o proletariado. Ele simplesmente mudou de montaria, mas em perfeita coerência com sua filosofia, a assim chamada esquerda hegeliana, em que o marxismo se insere. Seu método é a dialetização de contrastes para fazer triunfar a revolução. E qual é o propósito da revolução? A própria revolução. O fato é que a luta de classes, agora, já não é mais econômica, mas outra coisa: preto contra branco, mulher contra homem (feminismo), gay contra hétero e assim por diante. A última mutação da Esquerda é o Politicamente Correto.

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Como boa ideologia, Politicamente Correto se vale da inquisição generalizada para silenciar dissidentes, como se não bastasse recorrer a manifestações de rua, intimidação, linchamento na imprensa ou nas redes sociais e, por fim, nos tribunais, onde é cada vez mais vitoriosa. Além disso, o braço político é cada vez mais pressionado para promulgar leis ad hoc. Que são pura e simplesmente liberticidas, sendo impensáveis tempos atrás, ​​quando a palavra de ordem era “liberdade”… O círculo se fecha, e, quem não quiser encrenca, é obrigado a censurar-se e a usar as palavras da Novilíngua lançada pelas universidades americanas (todas as novidades vêm daí) e imposta ao resto do Império Ocidental.

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O que foi feito pelo Politicamente Correto, que é a ideologia mais totalitária e difusa que o mundo já conheceu, não conseguiu fazer o marxismo soviético: mudar o pensamento a partir da substituição de palavras. Seu objetivo é conquistar cada ser humano em particular, mais que o poder político. De libertação em libertação, chegamos à libertinagem de massas, já prevista por Augusto Del Noce.

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O politicamente correto, em resumo, é a última (por enquanto) ideologia totalitária com a qual temos que lidar. Em 2019 ocorreu o trigésimo aniversário da queda do comunismo (1989), mas este aniversário praticamente ninguém comemorou. Para efeito de comparação, o quinquagésimo aniversário de 1968 recebeu celebrações e encenações que começaram no final do ano anterior e continuaram, na mídia, mesmo depois de expirado o ano. Por quê? Porque são eles que comandam. Principalmente a mídia.

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O Sessenta e Oito, particularmente na Itália, não foi de forma alguma (eu estava lá) aquela explosão de liberdade juvenil que os veteranos asseguram, mas uma explosão, isso sim, de intolerância e espancamentos nos que não concordavam. E tudo impresso com mimeógrafo, panfletos, grafites, jornais fundados inicialmente com pouco dinheiro (quem escrevia, o fazia de graça). Ninguém era mais revolucionário que um jornalista, e isso desde os tempos de Marat, passando por Mazzini, Marx, Lenin, até Mussolini. O jornalista é uma pessoa “consagrada”. Como o padre, que pode falar o que quiser aos fiéis todos os domingos. Falar ao povo, ensinar-lhes qual é o seu verdadeiro bem, apontar-lhes o pecado e os pecadores dos quais devem se precaver, mostrar-lhes continuamente o Reino dos Céus. Substitua este último pelo Sol do Futuro e tudo ficará claro. Como o Reino dos Céus, o Sol do Futuro também é inefável. Não pode ser descrito. Sabe-se apenas que será um paraíso e devemos acreditar em sua palavra. A diferença, claro, é óbvia: os crentes têm os santos como prova de que tudo é verdade; os convencidos pelos demagogos têm apenas a tagarelice destes.

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O Politicamente Correto é puro marxismo, embora pós-soviético. Augusto Del Noce foi o primeiro que o percebeu, mas poucos acreditam nos profetas, pelo simples fato de que temos que esperar que a profecia se cumpra; só então alguém se lembrará, tarde demais, que o profeta o disse. Os mais eruditos sabem que, por trás de Sessenta e Oito, estava a filosofia-sociologia da chamada Escola de Frankfurt, marxista, cujos integrantes mais célebres foram Adorno, Marcuse, Horkheimer. Nos anos trinta, com o advento do nazismo, eles migraram. Para onde? Para os EUA, e ali, é claro, ensinaram nas universidades. Na verdade, esquecemos que 1968, bem antes do maio francês, estourou nos campi universitários americanos. E de onde vem, hoje, o Politicamente Correto? Também das universidades norte-americanas, onde atinge os picos do grotesco e da censura, que aqui, na periferia do império, ainda não foi visto.

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A mecânica da revolução é sempre a mesma, emprestada da dialética hegeliana (o marxismo, repita-se, é hegelianismo de esquerda): “dialetizar os contrastes”, incitando (“conscientizando as pessoas”) a parte “fraca”. Hoje é mulher contra homem, e “homo” contra “hetero”. Já que aqui não havia preto para brigar com branco, importavam-se os negros. E, enquanto esperamos que cresçam em número, vamos aproveitar (por assim dizer) a parada gay. O mês é apropriado para comemorar a (sempre americana) revolta de Stonewall. Mas também é o mês do Sagrado Coração e do Corpus Domini. O que nos dá esperança.

https://lanuovabq.it/it/dal-comunismo-al-politically-correct-perche-la-sinistra-non-ha-fallito