Don Miguel de Unamuno, que sabia combinar o cargo de reitor da Universidade de Salamanca e o gosto de pescar de varinha, teve sempre uma postura corajosa diante dos valores ingenuamente cosmopolitas da cultura contemporânea, uma maneira muito pessoal de abordar as ideias e os problemas do mundo, dominado sempre pelo que chamava de “paixão do pensamento” (ainda que isso soe paradoxal).

Foi esse cristão sem Deus, embora profundamente saudoso do Absoluto, quem disse, certa vez, num belo poema: “Senhor, por que consentes que os ateus te neguem? Por que, Senhor, nos deixa na dúvida, dúvida de morte? Por que te escondes? Por que incendiaste nosso peito com a ânsia de te conhecer, a ânsia de que existas, para te esconder assim de nossos olhares? Onde estás, meu Senhor? Acaso existes?”

Sua teologia desesperada e contraditória foi além. Num soneto de 1911, intitulado “A oração do ateu”, começa com este verso: “Ouve meu pedido, Tu, Deus que não existes.”

Sempre gostava de entrevistar-se com esse Deus que, para ele, era ou problemático ou inexistente. Não aceitava nem a ideia nem o fato da morte. Achava-a tremendamente absurda. Tudo o que escreveu está repassado dessa grande fome de imortalidade. Poderia ter escrito, antes do poeta inglês Dylan Thomas, aquele verso terrível: “Raiva, raiva da luz que vai morrendo!”

Era um tradicionalista: preferia a Espanha antiga e católica ao país moderno que tentava acertar o passo com a Europa da segunda Revolução Industrial. Apreciava muito da vida no campo e das pequenas cidades, concordando com Aristóteles que dizia ser impossível viver num lugar com mais de cem mil homens (cada homem com uma alma, cada alma com seus infinitos abismos).

E eis aqui um elemento fundamental do pensamento de Unamuno: a sua preocupação com a cidade humana. Sua filosofia é também política, interessada no destino dos indivíduos e da sociedade, embora nunca visse com simpatia as “massas rebeldes” das grandes cidades e sempre desprezasse as elites indiferentes.

Escreveu certa vez a respeito do escritor francês Anatole France, cético e marmóreo, dizendo ser ele “incapaz de indignar-se”. Na antítese dessa definição está o próprio Unamuno, que era o oposto do intelectual impassível e conformado. Jamais o relapso e pouco didático professor de Salamanca deixou de ser um homem indignado, em especial com a falta de inteligência e a injustiça.

Indignou-se a vida inteira: com os alunos na sala de aula ou na “calle” da Universidade, na reitoria ou na imprensa, nos seus ensaios, poemas e narrativas. Partiu indignado para o exílio, quando Primo de Rivera impôs sua ditadura à Espanha, entre 1923 a 1930.

Falando um dia sobre os livros que levaria consigo, se tivesse de se isolar numa ilha, Unamuno foi incisivo: carregaria única e exclusivamente o Evangelho Segundo São João, no original grego (era, como se sabe, professor de língua e literatura grega). Foi o que acabou ocorrendo com esse conhecedor de tantas línguas e tantas literaturas, esse ateu sempre perseguido pela ideia de Deus: partiu, já mais paciente que indignadamente, para o exílio em Fuerteventura com o Evangelho Segundo São João debaixo do braço.

Morreu em 1936, no início da guerra civil espanhola, sempre em dissídio com o Deus que nunca deixou de procurar.