[O jornalista espanhol Carlos Esteban, do conhecido site de informação católica Infovaticana, faz algumas reflexões indiretamente suscitadas pela encíclica Fratelli tutti, recém publicada].

A crise que a Igreja vive, hoje, é basicamente o silenciamento de partes essenciais de sua doutrina, a ausência de sua pregação habitual, tanto maior quanto mais alto se sobe na hierarquia. Não que elas sejam negadas; referências raras e ocasionais podem até ser feitas a elas, mas isto ocorre como que de passagem e sem praticamente jamais constituir o centro da mensagem dos pastores. Referimo-nos especificamente à parte sobrenatural de nossa fé e, mais especificamente ainda, ao que se refere ao destino eterno de cada alma. Para fazer um jogo de palavras, a novidade agora é esquecer os Novísimos [as questões sobre a morte, o julgamento, a perdição, a salvação].

É duplo o problema criado por esse vazio: de um lado, o abandono da fé da parte da maioria; de outro, o indiferentismo religioso [não há religião superior].

Em primeiro lugar, essa parte tacitamente negada de nossa fé — os Novísimos — é justo a que mais nitidamente a distingue das filosofias e modas ideológicas mundanas. Se as ideologias padecem de uma óbvia desvantagem, uma falha fatal em seu design, é que elas não falam nem buscam compreender o mais universal dos fenômenos humanos: a morte.

Embora as ideologias sejam apresentadas como explicações multicompreensivas e globais de todos os aspectos da experiência humana, ao deixar de fora da equação o que é mais saliente da experiência do homem — o fato de que todos iremos morrer –, deixam seus adeptos sem resposta para a questão mais urgente que existe: por que e para que estou aqui?

Mesmo em termos meramente humanos, eis a grande vantagem da fé: ela possui uma resposta a esta pergunta. Por isso, quando a instituição eclesial ignora este aspecto essencial, tende a se tornar uma gigantesca ONG assistencialista, na medida que o conteúdo de seus documentos, não trazido diretamente pela fé, é tomado de empréstimo das ideias mundanas, juntando-lhes um leve verniz de retórica cristã.

Naturalmente, com isso tal conteúdo perde a sua “vantagem comparativa” na batalha cultural das ideias, e não ganha nada, porque as pessoas que se sentem atraídas por suas novas ênfases — ecologia, pauperismo ou imigracionismo — tenderão a preferir o original à cópia, diluída e sobrecarregada por uma estrutura hierárquica e litúrgica que os espectadores reputam desnecessária. Em outras palavras, a Igreja se torna irrelevante ao repetir a mesma mensagem que as elites intelectuais seculares vêm pregando há décadas.

O segundo problema é ainda mais grave: é que o aspecto sobrenatural, a mensagem salvífica e o apelo urgente a considerar que, em cada segundo de nossa vida neste mundo, estamos jogando uma eternidade de inefável felicidade (Céu) ou de um tormento sem fim (inferno), é tão obviamente essencial, que ignorá-lo ou preteri-lo equivale  a haver deixado de acreditar.

Em nossa vida diária, os homens não só acreditamos ou deixamos de acreditar nas afirmações alheias por causa de seu “valor nominal”, mas por causa de muitos outros sinais, como a insistência. Se um conhecido (façamos uma analogia) nos diz que encontrou a mulher dos seus sonhos e é correspondido, acabaremos por descrer de sua história, se nunca o ouvirmos antes falar dela. Não estaremos convencidos de que alguém acredita de fato em um perigo terrível e iminente, se o virmos colocar-se permanentemente em uma situação que o provoque.

Não se trata, pois, como muitos dos entusiastas da “renovação da Igreja” insistem, que aqueles de nós que alertam sobre esta crise sejamos partidários de uma ideologia política contrária àquela que, agora, virou moda defender pela hierarquia eclesiástica do momento. O que denunciamos é uma mundanização da mensagem cristã, que a esvazia de sentido, sem que haja necessidade de negá-la ou alterá-la de maneira visível.