[O jornalista Cameron Hilditch, em artigo para o National Review, mostra e comenta um trecho de tradução recente da Bíblia patrocinada pelo Partido Comunista Chinês. Aqui vai a primeira parte: a adulteração que os comunistas chineses fizeram da passagem da… adúltera que Jesus salvou do apedrejamento].

No início deste ano, circulou a notícia sobre a intenção do Partido Comunista Chinês (PCC) de elaborar a sua própria “tradução” do texto da Bíblia aprovado pelo Estado. Obviamente, as Sagradas Escrituras não são tão afins com a ortodoxia do PCC quanto o comitê executivo do partido gostaria.

De acordo com a agência de notícias estatal Xinhua, o Partido reuniu no final do ano passado um grupo de “especialistas” (obedientes e dóceis) para a tarefa de “realizar uma interpretação precisa e bem fundamentada das doutrinas clássicas, harmonizando-as com nossa época”. Em outras palavras, o PCC planeja transformar as Escrituras em mais um veículo de propaganda do regime, reescrevendo-a a seu bel prazer.

Ainda não temos acesso a toda a “versão do Presidente Xi” da Bíblia, mas os primeiros frutos desse esforço sórdido foram divulgados na semana passada, quando uma editora do governo publicou um manual escolar para alunos do ensino médio. O livro, que é usado para ensinar “ética profissional e direito”, inclui uma passagem do capítulo oito do Evangelho de São João: é a passagem da famosa história da mulher apanhada em adultério e apresentada a Jesus, por seus inimigos, para que Ele a julgasse. Esta história é usada pelos autores do livro como um exemplo de uma conduta moral aprovada pelo Partido: a obediência à lei é absolutamente necessária, um princípio básico a ser instilado nos alunos por um governo que não tolera qualquer desobediência às suas próprias leis.

Aqueles familiarizados com esta passagem saberão da dificuldade de usá-la, se tomada ao pé da letra, para instruir os alunos na arte da submissão total ao Partido. O PCC está obviamente ciente disso e fez alterações significativas no texto. Nós a transcrevemos tal como aparece no Evangelho de João (8, 2-11):

Ao romper da manhã, voltou ao templo e todo o povo veio a ele. Assentou-se e começou a ensinar. Os escribas e os fariseus trou­xeram-lhe uma mulher que fora apanhada em adultério. Puseram-na no meio da multidão e disseram a Jesus: “Mestre, agora mesmo esta mulher foi apanhada em adultério. Moisés mandou-nos na Lei que apedrejássemos tais mulheres. Que dizes tu sobre isso?”. Perguntavam-lhe isso, a fim de pô-lo à prova e poderem acusá-lo. Jesus, porém, se inclinou para a frente e escrevia com o dedo na terra. Como eles insistissem, ergueu-se e disse-lhes: “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”. Inclinando-se novamente, escrevia na terra. A essas palavras, sentindo-se acusados pela sua própria consciência, eles se foram retirando um por um, até o último, a começar pelos mais idosos, de sorte que Jesus ficou sozinho, com a mulher diante dele. Então, ele se ergueu e vendo ali apenas a mulher, perguntou-lhe: “Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?”. Respondeu ela: “Ninguém, Senhor”. Disse-lhe então Jesus: “Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar”.

A “tradução” do Partido Comunista Chinês reproduz a história com relativa fidelidade, até o momento em que Jesus é deixado sozinho com a mulher. A partir daí, os eventos tomam um rumo completamente estranho e diabólico:

Quando a multidão desapareceu, Jesus apedrejou a mulher até a morte, dizendo: “Eu também sou um pecador. Mas se a lei só pudesse ser executada por homens imaculados, estaria morta.”

É isto mesmo. O texto diz que, nesta história, Jesus se livra da multidão para ter Ele mesmo o prazer de apedrejar a mulher.